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A Modernidade Tupiniquim (1)
Prof. Armando de Melo Lisboa (CNM/UFSC) |
"Tupi or not tupi. That is the question".
(Oswald de Andrade)
1. QUEM SOMOS ?
Tengamos presente que nuestro pueblo no es el europeo, ni el
americano del Norte, que más bien es un compuesto de Africa y de
América, que una emanación de la Europa (...). Es impossible asignar
con propiedad a qué familia humana pertenecemos. La mayor parte
del indígena se ha aniquilado, el europeo se ha mezclado con el
americano y con el africano, y éste se ha mezclado con el indio
y con el europeo. Nacidos todos del seno de una misma madre, nuestros
padres diferentes en origen y sangre, son extranjeros".
(Simon Bolívar)
Em "El Pensamiento Latinoamericano" (1976) Leopoldo Zea,
realizando um amplo balanço da evolução das idéias na América Latina,
demarca três grandes etàpas: a dominada pelo romantismo, a que se
inspira no positivismo, e a atual que, iniciando-se ao final do
século )(IX, busca a identidade latino-americana através da descoberta
do homem que aqui vive - o indígena, o negro, ... Esta etapa, expressando-se
já nas obras de um José Marti (1853-1895), José Mariátegui (1895-1930)
e Frantz Fanon (1925-1961),
irá culminar nos nossos dias com a filosofia da libertação onde
se define ser a tarefa do pensamento na América Latina libertar
o latino-americano. Para isto, necessita-se reconhecer a insuficiência
da cultura ocidental e superar a modernídade européia (bem como
seu alter ego, os Estados Unidos), rompendo com a dependência e
a alienação.
Também Carlos Mota (1986), numa rápida síntese do pensamento latinoamericano
nos mostra que a fase atual do mesmo - a qual se situa no contexto
pós-68 de fracasso da luta armada em vários países, da emergência
de novos movimentos sociais e, especialmente, do surgimento de uma
nova igreja que, com sua Teologia da Libertação2, vem ocupando um
lugar de liderança - é a da busca de uma nova identidade que possibilite
a libertação e a integração da América Latina.
A reflexão sobre a nossa identidade se insere, segundo o filósofo
e embaixador nicaragüense Alejandro Caldera, no contexto da crise
da civilização ocidental - a qual, para Comblin (1977: 114), abre
a oportunidade para que nós latino-americanos descubramos e afirmemos
nossa própria personalidade. Analisando a Filosofia da Libertação
latinoamericana, conclui Caldera (1985: 17-96) que esta reflexão
tem uma dimensão universal, devendo superar criticamente o moderno
racionalismo europeu - "diante da crise do Ocidente (...) a
filosofia latinoamericana não pretende provincializar os temas da
reflexão filosófica, mas indicar uma perspectiva a partir de uma
situação espaço-temporal que se abre para o mundo". A América
Latina, partindo da sua situação original e da reflexão sobre sua
identidade, deve forjar uma "síntese de superação do eurocentrismo;
contribuir para a criação de uma nova humanidade universal".
Diante da crise da perda do sentido da existência pela sociedade
industrial modema, "nossos povos em seus processos de libertação
e de reafirmação de sua identidade se encontram diante de um desafio:
a possibilidade de oferecer novamente os valores da liberdade e
da solidariedade".
Para Dussel (1982) a Filosofia da Libertação "é pós-moderna",
termo que para ele quer indicar que devemos superar a modernidade
eurocêntrica que situou todos os homens como instrumentos úteis
e manipuláveis, especialmente os da sua periferia: "o pecado
original da modernidade foi haver ignorado no índio, no africano,
no asiático, o 'outro' sagrado, e havê-lo coisificado como instrumento
dentro do mundo da dominação norte-atlantica" (Dussel, 1977:
63). Esta ontologia utilitarista surge da experiência de dominação-opressão
- "antes do ego cogito existe o ego conquisto (o 'eu conquisto'
é o fundamento prático do 'eu penso')" (Dussel, 1982 10).
É neste contexto que se passa a reconhecer a complexidade e originalidade
do capitalismo dependente latino-americano - "a complexidade
do chamado capitalismo dependente é descoberta, assim como a complexidade
e variedade das sociedades latino-artericanas é descoberta. Começa-se
a discutir com mais rigor e menor índice de generalidade as teorias
da dependência e os modos de produção no subcontinente" (Mota,
1986: 299) - a qual é percebida, por exemplo, por Rouquié (1984:
31) que, buscando superar os estereótipos dos "determinismos
culturais" e as comodas generalidades das explicações monocausais,
pergunta-se " [.. ] a América Latina existe? Pensar nas Américas
Latinas não resolve absolutamente a dificuldade. A cultura, a língua
ou a geografia são de pouca utilidade. O México não pertence à América
do Norte? Quem poderia pensar que o Canadá, apesar de sua origem
em parte francesa, pertence à América dita Latina? E o organismo
de cooperação econômica recentemente criado com o nome de SELA (Sistema
Econômico Latinoamericano) não associa vários países de língua inglesa?".
Para Rouquie a América Latina define-se pela sua condição de ser
um continente conquistado e dependente - conquista que nunca acabou
e que se prolonga até os nossos dias - onde se impuseram as línguas,
a religião e os valores europeus, fazendo-nos pertencer acultural
e totalmente" ao Ocidente (na condição de "terceiro mundo
do Ocidente"), o que não ocorreu com as outras zonas de dependência
da Asia e Africa.
Esta particularidade da condição latinoamericana é também constatada
por Zea (1984: 215-216), o qual realça a dramaticidade com que a
inteligência deste subcontinente procura nossa identidade, não se
comparando com a mesma busca que também reatiza a inteligência asiática
e africana - estes recuperam sua identidade que o Ocidente vinha
ocultando, fazendo do seu suposto "primitivismo" expressão
de uma "atitude intelectual mais ampla e aberta ao mundo, incluindo
a natureza" Na América Latina, entretanto, n30 se trata de
"dar vida ou recuperar uma identidade coisificada e oculta,
sen30 de perfilar uma identidade ainda não feita, inexistente, em
formação".
2. FORMAÇÃO DA MODERNIDADE CABOCLA
"O trágico é que as fonnas de modemização do capitalismo
no Brasil são arcaicas "
(Francisco de Oliveira)
Sem fazer um trabalho exaustivo, pretendemos analisar aqui como
se formam os traços fundamentais da sociedade brasileira através
de alguns dos seus mais reconhecidos intérpretes. Muitos são os
que têm constatado os contrastes da nossa terra, a convivência de
valores e costumes que correspondem a épocas bem diversas, a sinercnia
no uso das tecnologias mais modernas com as mais "primitivas"
formas de exploração. Na tentativa de desvendar este enigma da modemidade
brasileira, analisaremos as obras de alguns cientistas políticos,
historiadores, antropólogos, críticos literários, economistas e
filósofos que discutem os nossos padrões históricos de predatoriedade,
ambigüidade, mestiçagem, ecletismo, conciliação e arbítrio, resgatando
o debáte que contrapõe as duas grandes interpretações sobre o Brasil:
uma que acentua o amálgama mestiço do "Brasil cadinho"
e outra que enfatiza um Brasil conflituoso, contraditório.
Diversos cientistas sociais têm descrito o nosso processo de modernização
como o de uma modernização-conservadora3, isto é, uma modemidade
que avança sem rupturas fundamentais com o passado.
Nossa "modernidade" não pode ser compreendida conforme
os padrões clássicos da modemidade européia, que, utilizados para
o nosso caso, poderiam nos conduzir à afirmação de que "ainda
não somos modemos"4. Entendemos que o conceito de modemização-conservadora
é a grande chave explicativa da nossa sociedade. Porém, é preciso
compreendê-lo dentro do nosso processo histórico: falar em modernização-conservadora
no Brasil é simultaneamente falar em um processo de transição sem
rupturas fundamentais de uma sociedade agrária, fundada no latifúndio
escravista, para uma sociedade industrialurbana-mercantil, processo
este em que o Estado tem um papel condutor decisivo. Daí a permanência
de amplos setores não mercantis tanto no campo quanto na cidade,
de formas de trabalho compulsório5 e de padrões políticos pré-modemos.
Aqui estão outras duas chaves complementares para se entenderem
os padrões da nossa modernidade tupiniquim, os quais, interagindo,
geram o processo de modemização conservadora. Trata-se, a partir
de agora, de explicar de que forma e com que características surgiu
a indústria e o Estado nacional no Brasil.
2.1. A marca da predatoriedade
O Brasil, como o restante da América Latina, foi constituído como
sociedade dentro do movimento de expansão europeu, quando o processo
civilizatório da modemidade atinge escala planetária. Somos parte
do Ocidente, porém de forma periférica, pois nos agregamos à modernidade
européia mediante um processo de dominação, subjugados numa condição
colonial na qual fomos inicialmente mecanismo da acumulação primitiva
do velho mundo. A sociedade moderna que aqui se implanta não nasceu
das nossas entranhas, mas penetrou em nossas terras, violentando
os povos que aqui viviam. O testemunho do profeta Bartolomeu de
las Casas (1484-1566), que aqui denunciou a barbárie cometida pela
"civilização" Ocidental, é revelador das formas como os
europeus dominaram nossas terras: "Uma foi a guerra injusta,
cruel, tiranica e sangrenta. Outra foi matar todos aqueles que podiam
ainda (...) pensar em recobrar a liberdade (...); pois comumente
na guerra nao deixam viver senãa crianças e mulheres: e depois oprimem-nos
com a mais horrível e áspera servidão a que jamais se tenham submetido
homens ou animais" (Casas, 1984:29). Esclarece Dussel (1982:16),
comentando este texto, que a mulher é deixada com vida para se amancebarem
com ela (dominação erótica) e as crianças para a educação na cultura
européia (dominação pedagógica). Assim, nascemos mestiços, mulatos,
miscigenados. A América Latina é filha de mãe afroameríndia violentada
por um pai missionário-conquistador6.
A complexidade da sociedade brasileira está visível desde as sua.s
origens, quando da sua formação na condição colonial como uma economia
fundada no contraditório eixo mercantil-escravista, o que é explicado
pela promoção da primitiva acumulação capitalista no contexto de
expansão mercantilista-europeu -- no qual a empresa colonial portuguesa
não visava o povoamento, mas a apropriação rápida de um grande excedente
sob a forma de lucros obtidos através da comercialização dos produtos
coloniais no mercado mundial. Isto exigiu que a economia colonial
adotasse formas de trabalho compulsório (que na sua forma limite
significou a recriação da escravidão nos trópicos, quando na Europa
já se generalizava o traba!ho "livre", assalariado), e
se estruturasse sobre a base do latifúndio, de uma extrema especialização
(monocultora) e do regime do "exclusivo metropolitano"
(monopólio comercial, mecanismo fundamental pelo qual o sistema
colonial da era moderna transfere seu excedente para a metrópole).
Esta busca por um enriquecimento fácil gerou o caráter predatório
da nossa economia, o qual já foi apontado no início do século XVII
por nosso primeiro historiador, Fr. Vicente do Salvador, quando
afirma que os primeiros europeus que para cá vieram "usam a
tema não como senhores mas como usufrutuarios, só para a desfrutarem
e a deixarem destruida" (apud Prado, 1944: 111). Também na
escolha do nome "Brasil", esclarece Pádua (1987), prevaleceu
o projeto colonizador-mercantilista que via a ñova terra como "um
imenso 'pau-brasil', uma rica natureza a ser usada e explorada sem
nenhuma preocupação além do ganho imediato". É fácil constatar
que a história do Brasil é a do saque, da degradação da natureza
e da espoliação brutal do homem. O resultado está descrito por Prado
Jr. (1985: 25, 39, 88): a exploração do pau-brasil "não deixou
traços apreciáveis, a não ser na destruição impiedosa e em larga
escala das florestas nativas"; com a cultura da cana no nordeste
"desaparecem os solos férteis, que são substituídos por extensões
arenosas impróprias para qualquer forma de agricultura"; devido
à queimada e ao "consumo indiscriminado e descontrolado da
lenha (...) a devastação da mata em larga escala ia semeando desertos
estéreis atrás do colonizador, sempre em busca de solos frescos
que nao exigissem maior esforço de sua parte". Até hoje permanece
a pratica da coivara (queimada da mata para limpeza do solo) que
herdamos dos índios. Porém, aponta Lutzenberyer (1977: 21) - ao
denunciar o desbravamento irracional e predatório provocado pela
finsia do enriquecimento fácil e por uma cultura de insensibilidade
para com a natureza que caracteriza a sociedade moderna -, o índio
estava numa situação de "equilíbrio estável em seu ambiente",
sendo a coivara, por ele praticada desde milênios, de caráter pequeno
e visando, com a roça, apenas complementar o "produto da caça
e os frutos silvestres, obtidos em esquema de exploração permanentemente
sustentável - sem degradação do ecossistema. O colono, entretanto,
acabou logo com a caça, alterou e destruiu ecossistemas inteiros
pelas queimadas".
Esta economia mercantil-escravista-predatória (que caracteriza
ainda nosso capitalismo "selvagem") engendrou um amplo
setor de subsistência que, baixando o custo da manutenção da força
de trabalho escravizada, permitia a reprodução de todo sistema pois
possibilitava que a fração do excedente que permanecia na colônia
se concentrasse nas mãos da pequena camada senhorial. Assim, em
pleno capitalismo mercantil surge no Brasil, a partir dele, uma
grande economia de subsistência. Ora, isto é o inverso do processo
ocorrido no desenvolvimento do capitalismo europeu, no qual a economia
mercantil surge a partir da lenta transformação da economia de subsistência
feudal. A estruturação econômica senhorial, se limitava o crescimento
interno do mercado e bloqueava a mercantilização das forças de trabalho,
por outro lado era e é altamente amortecedora das crises econômico-sociais,
funcionando como um grande colchão que absorve-as, impedindo que
se gere rupturas drásticas no tecido social. Assim, apesar das crises
até seculares pelas quais a economia brasileira tem ultrapassado
desde o período colonial (da economia açucareira, mineira, do algodão,
do café...), a estrutura latifundiária de trabalho compulsório e
de caráter predatório se manteve até hoje, permanecendo também a
existência do amplo setor informal "arcaico" inextricável
do moderno setor mercantil. No Brasil, esclarece Francisco Oliveira
(1981: 12, 36), para além do antagônico dualismo arcaico-moderno,
ocorre uma simbiose, "uma unidade de contrários, em que o chamado
'moderno' cresce e se alimenta da existência do 'atrasado' ".
Nisto reside a originalidade da expansão do capitalismo no Brasil:
na introdução de relações novas no "arcaico" e na reprodução
de relações "arcaicas" no novo, nesta compatibilização
da acumulação global "em que a introdução das relações novas
no arcaico libera força de trabalho que suporta a acumulação industrial-urbana
e em que a reprodução de relações arcaicas no novo preserva o potencial
de acumulação liberado exclusivamente para os fins de expansão do
próprio novo" (grifo do original).
2.2. A metamorfose do capital agrário em capital industrial
Quando do advento da nossa tardia industrialização apoiada pelo
Estado, a substituição das classes proprietárias rurais pelas novas
classes burguesas não exigiu rupturas7 como no modelo clássico da
revolução burguesa, pois o nosso capital industrial se formou a
partir do capital cafeeiro, estando em continuidade com nossas seculares
estruturas agrárias - aqui reside uma das chaves já apontadas para
a compreensão da nossa "modemidade". Não é casualmente
que na região do café se encontra a maior parte da indústria nascente,
sendo nela que o desenvolvimento das relações capitalistas se dá
mais aceleradamente (conf. Silva, 1981: 17). Ora, o advento do café
já tinha produzido o efeito - conforme nos ensina Prado Jr. (1985:
168) - de "reforçar a estrutura tradicional da economia brasileira,
voltada inteiramente para a produção intensiva de uns poucos gêneros
destinados à exportação", perpetuando a grande propriedade
monocultural que utiliza o trabalho compulsório e levando-nos a
ser o último país a abolir a escravidão. É nesta ascensão da acumulação
capitalista que "não requer a destruição completa" das
relações não-capitalistas, perpetuando-as, que reside, de acordo
com Oliveira (1981: 37-44), a "especificidade particular"
do desenvolvimento capitalista brasileiro.
A tese de que a indústria no Brasil surge a partir do café é amplamente
firmada por Sérgio Silva (1981), João Manuel C. de Mello (1982)
e Ma da Conceição Tavares (1986). Esclarece João Manuel (1982: 99)
que a acumulação cafeeira engendrou os pré-requisitos necessários
para o surgimento do capital industrial e da grande indústria ao:
"1) gerar, previamente, uma massa de capital monetário, concentrada
nas mãos de determinada classe social, passível de se transformar
em capital produtivo industrial; 2) transformar a própria força
de trabalho em mercadoria; e, finalmente, 3) promover a criação
de um mercado interno de proporções consideráveis". Porém,
estes autores, superando o linearismo das análises que afirmam tanto
que o café estimula a indústria quanto a bloqueia, mostram que as
relações entre o capital cafeeiro e o industrial possuem uma unidade
contraditória: "a unidade está no fato de que o desenvolvimento
capitalista baseado na expansão cafeeira provoca o nascimento e
um certo desenvolvimento da indústria; a contradição, nos limites
impostos ao desenvolvimento da indústria pela própria posição dominante
da economia cafeeira na acumulação de capital" (Sllva, 1981:
103). Estes limites derivam da subordinação do capital industrial
ao cafeeiro e da subordinação deste e da economia brasileira ao
capital internacional, pois a divisão internacional do trabalho,
determinando a especialização da economia brasileira na produção
de produtos primários para a expansão, possibilitou o surgimento
tardio da indústria de bens de consumo assalariado, mas impediu
a autonomia interna da acumulação industrial ao excluir o desenvolvimento
do seu núcleo fundamental, ou seja, o da indústria pesada de bens
de produção, o qual somente aparecerá em meados dos anos 50. Ora,
este processo é incontestavelmente diferente dos padrões clássicos
de industrialização. É esta especificidade da nossa dinamica econômica
que leva João Manuel (1982: 177) a concluir que a história brasileira
"é a História de um determinado capitalismo, do capitalismo
tardio: sua especificidade não advém de surgir das entranhas da
economia colonial, criatura, por sua vez, do capital mercantil?
Sua peculiaridade não provém de que o capitalismo nasce desacompanhado
de forças produtivas capitalistas? Sua originalidade não reside
em que a grande indústria pode surgir e se consolidar sem que surja
concomitantemente um departamento de bens de produção? Em que, mesmo
quando espoca, a industrialização pode se manter restringida? Em
que, mesmo quando se completa, a dinamica da acumulação atrela-se
às injunções do Estado e da grande empresa oligopólica estrangeira,
sem nunca comportar-se na plenitude?".
A "metamorfose do senhor agrário em 'homem de negócios' "
é também apontada por Florestan Fernandes (1981: 106-116) em sua
séria investigação sobre "A Revolução Burguesa no Brasil",
em que busca explicar a "modernidade buryuesa nos trópicos",
utilizando o conceito de "revolucao burguesa"8. Confirma
ele que é a partir da fazenda do café - a qual já tinha significado
o "clímax" da grande lavoura, perpetuando a 'ttradição
senhorial" - que ocorre a modernizacão da economia, sendo o
fazendeiro "o principal agente humano 'nativo' da Revolução
Burguesa". Não há aqui uma crise que provocasse o colapso da
velha oligarquia e a sua substituição por novas classes dominantes,
mas sim um fenômeno mais amplo e dramático: "a coalescencia
estrutural dos vários estratos sociais e das várias categorias econômicas
que formavam as 'classes possuidoras' "(ibid.: 311 ).
É por isto que a nossa burguesia tem um ' moderado esplnlo modernizador",
não assumindo o "papel de paladina da civilização ou de instrumento
da modemidade". A articulação do setor arcaico ao modemo se
reproduz porque para a burguesia "é vantajoso tirar proveito
dos tempos desiguais e da heterogeneidade da sociedade brasileira",
levando-nos a ser "uma modemidade tão peculiar" (ibid.:
204, 9).
Pelos mesmos motivos, Darcy Ribeiro (1985: 90-95) concluirá que
nossa burguesia nacional "não constitui uma 'burguesia' no
sentido clássico porque não disputa o poder político a uma aristocracia",
nem quer "refazer revolucionariamente a ordenação social porque
esta corresponde a seus interesses". Aqui a burguesia não encontrou
obstáculos à sua expansão advindos dos setores oligárquicos. Pelo
contrario, a passagem do oligárquico ao moderno "se faz espontaneamente"
. Para Ribeiro o empresariado modemo tem "características conservadoras"
pois seus interesses não se opõem à classe dominante tradicional,
mas se complementam. Por isto o patronato brasileiro se alia aos
setores oligárquicos: "para preservar a estrutura global".
Entretanto, nos alerta Eli Diniz (1978), discordando parcialmente
de Daroy, que o fato de a nascente burguesia industrial ter sido
gradualmente incorporada no esquema de alianças das elites tradicionais
(proprietários rurais e grandes comerciantes) não significa que
n30 tenham ocorrido resistências, pois à medida que o setor industrial
se consolidava como centro dinamico da economia foi se dando um
processo de diferenciação de interesses. Aqui Diniz discordará de
forma mais geral de B. Fausto, E. Carone, L. Martins e 0. Velho
que, renovando a análise historiográfica e sociológica brasileira,
demonstrarão a continuidade entre os setores dominantes tradicionais
e os industriais emergentes, privilegiando, portanto, os aspectos
da conservação no nosso processo de modernização-conservadora. Diniz
preferirá, entretanto, "enfatizar o lado da modemização e a
renovação, em contraposição aos aspectos ligados à preservação e
à conservação" (ibid.: 50). Entendemos, contrariamente, que
se deve superar este movimento pendular, pois não se trata de enfatizar
seja o pólo da conservação, seja o da modemização, mas de perceber
sua mútua interrelação. Muitas vezes, esclarece Ortiz (1988: 36),
a busca por ultrapassar o subdesenvolvimento "estimula uma
dualidade da razão que privilegia o pólo da modernização",
o que nos leva a sermos acríticos diante da modernídade e impede
a compreensão do nosso real processo histórico.
2.3. A modernização droconiana
Outra face fundamental do processo de transformação do Brasil na
direção de uma sociedade "modema" tem sido a tutela do
Estado. Fernandes (1981: 221), por exemplo, apontou para isto ao
afirmar, concordando com B. Moore Jr. que não existe um único modelo
de transformação capitalista, que é o caráter autocrático, de cima
para baixo, que torna a revolução burguesa no Brasil peculiar. Acentua
Florestan que o decisivo papel do Estado, possibilitando a unificação
da buryuesia no plano político "antes da constituição da ordem
social competitiva", permitiu também que a nossa "modernização"
ocorresse a partir da transição sem rupturas do poder oligárquico
para o poder burguês - "a oligarquia n30 perdeu a base de poder
que lograra antes, como e enquanto aristocracia agrária; e encontrou
condiçoes ideais para enfrentar a transição, modemizando-se".
A partir da superação da nossa condição colonial advinda com a crise
do antigo sistema colonial, que aqui se processa através da independência
política e da instauração do Estado nacional controlado pela aristocracia
agrária, é que se possibilita a "era da modernização do Brasil",
a qual "não aparece como um fenômeno maduro da evolução interna
do mercado capitalista moderno" (ibid.: 204,7).
O Estado no Brasil não tem sido um espaço público, mas sim patrimonialista,
ocupado pelos "donos do poder" (Faoro). Uma das chaves
de leitura da nossa modernidade tupiniquim está em compreender que
é este Estado patrimonial-autoritário um dos principais agentes
da "modernização", gerando este processo ambivalente de
modernização conservadora, pois aqui o Estado, de forma paradoxal,
expressa tanto um projeto de modemização quanto os interesses das
elites políticas tradicionais.
Este papel vital do Estado é confirmado por Suzigan (1986) que,
em seu meticuloso estudo sobre a "Indústria Brasileira",
nos mostra a ajuda governamental ao processo de industrialização
- que, de praticamente nula antes da Primeira Guerra Mundial, toma-se
importante depois dela, ainda que muito assistemática até os anos
30. A partir de então, as políticas govemamentais passam a ter um
papel realmente importante, tendo na década de 50 - para Tavares
(1986: 101) - um caráter decisivo na constituição da indústria pesada
de bens de produção.
Entretanto, reconhecer o papel do Estado na condução do processo
de modernizaçã-conservadora não significa considerá-lo mecanicamente
nem como um mero instrumento de dominação de classe nem, por outro
lado, como totalmente autônomo em relação b sociedade9, Eli Diniz
(1978), buscando uma análise integrada das relações entre Estado
e sociedade no Brasil10, esclareceu que, se na condução da nossa
industrialização o Estado tem um papel preponderanfe, isto não o
toma determinante em absoluto pois nao podemos descaractefizar a
sociedade civil como campo dotado de dinamismo próprio e nem encobrir
sua mútua interpenetração com o Estado.
Este processo de "modernização" a partir do Estado como
a forma pela qual os países periféricos ingressam na "modemidade"
é apontado por Berman (1986: 220) em sua descrição da aventura da
modernídade, na qual apresenta o turbilhão da vida moderna em que
o destino de "tudo que é sólido" é "desmanchar no
ar". Berman adota a Rússia do século XIX, mais específicamente
São Petersburgo, como arquétipo da modemizacão nos países do Terceiro
Mundo, a qual consiste fundamentalmente num processo de "modemização
droconiana", contrastando com o modemismo das nações mais ricas,
que brota "diretamente da modernização política e econômica".
É fácil constatar que aqui na América Latina - onde teríamos Brasília
como paradigma - os processos de modernização econômica não fizeram
surgir concomitantemente a modernidade política, conforme o modelo
democrático dos países desenvolvidos, como muitos esperavam (e outros,
com bastante otimismo, ainda esperam).
No seu histórico ensaio "A democracia como valor universal",
Coutinho (1980: 32) assinala que a modernização econômica-social
brasileira foi feita por uma "via prussiana"11 (conceito
que ele toma de Lenin e Lukács), isto é, "através da conciliação
entre frações das classes dominantes, de medidas aplicadas de cima
para baixo, com a conservação de traços essenciais das relações
de produção atrasadas (o latifúndio) e com a reprodução (ampliada)
da dependência ao capitalismo intemacional".
Coutinho (1988:106 115) também faz uSQ do análogo conceito gramssiano
de "revolução passiva" (ou "révolução restauração",
ou ainda "revolução pelo alto") e do conceito de inspiração
gramssiana de "Estado ampliado" para caracterizar o processo
de modemização-conservadora da sociedade brasileira e para propor
a construção de uma estratégia democrática de luta pelo socialismo
no Brasil. Enfim, esclarece ele que na transição brasileira para
o capitalismo "o Estado desempenhou freqüentemente o papel
de principal protagonista" e que, "ao contrário do que
supunha a tradição marxista-lenista, o Brasil experimentou um processo
de modemização capitalista sem por isso ser obrigado a realizar
uma 'revolução democrático-burguesa' ou de 'libertação nacional'
segundo o modelo jacobino". Daí a constante prática do "transformismo",
de incorporar via cooptação, mas numa posição subordinada, as massas
populares.
Estas são também as conclusões de lanni (1984: 11,43), que afirma
ser a marca histórica da tutela do Estado sobre uma "débil"
sociedade civil o resultado da luta de classes, da "contra-revolução
burguesa permanente", que visa fazer frente às forças sociais
dominadas que têm se manifestado ao longo de toda nossa história.
Assim, a forma "prussiana" da revolução burguesa é uma
manifestação do caráter autoritário, violento - visível de forma
brutal após 1964 - com que o Estado aqui reage para impedir que
as massas populares possam reduzir a exploração. Daí a aparência
que o Brasil tem de "território ocupado", das suas classes
dirigentes como "conquistadores estrangeiros" e do seu
povo como "povo conquistado".
Ao criar a categoria de "anéis"12 para caracterizar que
no Brasil os interesses organizam-se não através de "partidos
de classes, sindicatos e associações de grupos e classes",
mas em "círculos múltiplos" que cortam multifaceticamente
a piramide social "ligando em vários subsistemas de interesse
e cumplicidade segmentos do governo, da burocracia, das empresas,
dos sindicatos etc. ", Cardoso ( 1979: 99) desvela de forma
clara como Estado e sociedade se entrelaçam no nosso país, onde
se (con)fundem interesses públicos e privados13. Estes añéis os
quais não se confundem com os lobbies, legítimos nas democracias
sao como "teias de cumplicidade pessoais" que servem ao
clientelismo político brasileiro, sendo através dos mesmos que as
antigas oligarquias regionais são readaptadas para "participar"
da administracão "racional". Isto enviesa o planejamento
no Brasil, a forma moderna de gestão, o qual não consegue ser um
modo "racional-modemo" de alocação de recursos.
Nos filiamos à hipótese desenvolvida por Rouquié (1984) de que
o Estado na América Latina começou a modernizar-se a partir das
exigências da sua fração militar. Em nosso subcontinente, a formação
das forças armadas profissionais e centralizadas - que se inicia
com a vinda de missões militares estrangeiras ao final do século
XIX e com a instituição do serviço militar obrigatório no início
do século X)( (instaurado antes do advento do sufrágio universal)
- reflete-se sobre o próprio Estado, reforçando o processo de modernização
do mesmo, além de proporcionar os recursos organizativos e morais
para os militares interferirem na vida política nacional. No Brasil
é somente com a República que ocorre a "profissionalização"
e a militarização das Forças Armadas (conforme Heloísa Fernandes,
1974; Wainise Galv30, 1984), sintomatizado a partir de 1916 com
a obrigatoriedade do serviço militar e com a vinda da missao militar
francesa em 1919. Aqui, onde se desconhece guerras externas desde
o término da do Paraguai em 1870, os militares, já modemizados,
passam a ter três objetivos básicos: "centralizar o poder colocando
um ponto final à sua dispersão geográfica (...), defender a soberania
e, finalmente, integrar os diferentes componentes étnicos, sociais
e regionais emprestando-lhes o sentimento de membros de uma mesma
comunidade" (Rouquié, 1984: 122). O tenentismo dos anos 20
emergindo, de acordo com Weffort (1980:114), com a crise do Estado
oligárquico e com a ascensão de novos setores sociais (classes médias)
ainda não incorporados pela economia agro-exportadora - é a primeira
grande expressão do agudo sentido que os militares têm de construir
um projeto nacional. No contexto da luta pela modernização das estruturas
políticas, os tenentes defendem - segundo Camargo (1984:71) - "a
centralização política e a racionalidade das decisões do Estado,
contra o clientelismo provinciano das oligarquias" Não é por
mero acaso que 1922, quando "inicia-se o cicio político-militar"
(ibid.), é também o ano da realização da Semana da Arte Modema e
da fundação do Partido Comunista do Brasil. Nos anos 20, enfim,
prenunciam-se as mudanças que Virão após 1930.
Em "A moderna tradição brasileira", Renato Ortiz (1988),
analisando o movimento modemista dos anos 20 no Brasil, argumenta
que o conceito de modemidade no início do século XX estaria "fora
do lugar", pois "o Modernismo ocorre no Brasil sem modemização".
Para ele, uma marca da nossa condição histórica é a anterioridade,
a defasagem entre níveis que no marco clássico do capitalismo ocorreram
concomitantemente (ibid.: 17-32).
Isto teria sido captado tanto pelos sociólogos quanto pelos críticos
literários - estes últimos afirmando que o "Modernismo da década
de 20 'antecipa' mudanças que irão se concretizar somente nos anos
posteriores". Candido (1984: 27), por exemplo, aponta exatamente
que os anos 20 difundiram "fermentos de transformação"
que, após 1930, se tomam até certo ponto "normais". Conclui
Ortiz que o pensamento na periferia tende a reificar o modemo à
medida que este se apresenta como um desejo de superar o subdesenvolvimento,
como um projeto a ser construído nacionalmente, mas em descompasso
com a situação dura da realidade. Assim, diferenciados do modemismo
europeu, ingressamos na modernidade acriticamente - sintoma disto
é o fato de que no Brasil "os críticos da modernídade sempre
foram os intelectuais tradicionais" - e sem rupturas - pois
quando o modemo finalmente se implanta ele já possui aqui uma longa
tradição (Ortiz, 1988: 36, 208-210).
O Brasil ingressa definitivamente na sua "modernídade"
entre as décadas de 1930 e 1950, quando o processo de urbanização
e industrialização se acelera e hegemoniza. As transformaçoes deste
período no plano econômico são apontadas por Suzigam (1986), que
nos esclarece que até a Primeira Guerra Mundial o desenvolvimento
industrial brasileiro era induzido pela expansão do setor exportador
(basicamente o café), sendo que após ela esta relação foi gradualmente
reduzida. A transição de uma economia agrícola de exportação para
uma economia industrial no Brasil iniciou-se após o choque da Primeira
Guerra, particularmente nos anos 20 e especialmente na década de
30 quando, com a grande depressão e a conseqüente crise do setor
exportador, ocorre um ponto de inflexão ao ser rompida a ligação
entre a expansão do setor exportador e o crescimento industrial,
o qual passa a ser determinado principalmente pelo mercado interno.
Esta transição só seria completada em fins dos anos 50, quando a
industrialização passa a abranger a produção interna de insumos
básicos e de bens de capital.
Marcos deste ingresso na sociedade moderna de consumo de massas
são: a criação da universidade brasileira com a fundação da Universidade
de São Paulo, em 1934, e o aparecimento dos cursos superiores de
Filosofia, Ciências Sociais, História, Letras e Economia; a construção,
nos anos 30, do edifício do então Ministério da Educação e Saúde,
projetado por L. Costa e O. Niemeyer na gestão de G. Capanema, cujas
paredes abrigam murais de C. Portinari (1903-1962); bem como, culminando
as transformações desse período, a construção de Brasília, em fins
dos anos 50, símbolo da "modernidade" brasileira. Os mais
diversos campos da cultura brasileira tiveram um desenvolvimento
excepcional nos anos 30 e 40 - de acordo com Candido (1984: 30)
- quando os meios de difusão cultural como o rádio e a indústria
do livro (realça-se aqui o papel de Chateaubriand, 1891-1968, e
Lobato, 1882-1948) passam a ter importante atuação; na vida artística
e literária destacam-se Villa Lobos (1887-1959), Graciliano Ramos
(1892-1953), Alceu A. Lima (1893-1983), Di Cavalcanti (1897-1976),
sendo que a música popular, o samba e a marcha passam a ter expressão
nacional, evidenciando nomes como Noel Rosa (191o 1937), Ismael
Silva (1905-1974), Lamartine Babo (1904-1963) e muitos outros. É
nestes decênios que se assiste à "consolidação e difusão da
poética modemista", com a produção madura de Manuel Bandeira
(188S 1968) e Mário de Andrade (1893-1945). Depois de 1930 ocorre
a "interpenetração literária em todo o Brasil, possibilitando
ao ieitor viver simultaneamente a Bahia de Jorge Amado, a Paraíba
ou o Recife de José Lins do Rego, a Aracaju de Amando Fontes, a
Amazônia de Abguar Bastos, a Belo Horizonte de Ciro dos Anjos, a
Porto Alegre de Érico Veríssimo ou Dionélio Machado". Este
fenômeno coincide com o processo apontado pelos economistas Singer
(1973) e Oliveira (1980) de unificação do mercado nacional entre
os anos 30 e 50, até então fragmentado regionalmente, condicionado
externamente e com barreiras alfandegárias interestaduais que vigoraram
até 1937. Com os códigos de minas e de águas de 1934, seguidos posteriormente
da legislação trabalhista, o Brasil se ordena institucionalmente,
abrindo espaços para a a modernização" social, apesar de estar
com um sindicalismo em processo de tutelação pelo Estado. Após os
anos 40 é que Ortiz situará a emergêñcia da indústria cultural no
Brasil, destacando o papel do rádio, do cinema e da televisão, aqui
introduzida em 1950.
2.4. A procura da nossa identidade
Na inquietação dos anos 20, especialmente apos os fermentos renovadores
lançados pela Semana de Arte Modema, a inteligência brasileira,
segundo Cruz Costa (1967: 399), passa a procurar "compreender
e interpretar melhor a alma do povo"; a "redescobrir o
Brasil", afirma Mota (1980: 27). Isto se visualiza, por exemplo,
nas obras matrizes de Paulo Prado (1869-1943), Gilberto Freire (1900-1987)
e Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).
Em "Retrato do Brasil" (1928), Prado, participante do
movimento modernista de 1922, constrói um "quadro impressionista"
do Brasil, caracterizando negativamente este "reino da mestiçagem",
produto da "ebulição formídável do cadinho" em que se
amalgamam todas as raças "O Brasil, de fato, nao progride;
vive e cresce, como cresce e vive uma criança doente no lento desenvolvimento
de um Corpo mal organizado". Diferentemente dos Estados Unidos
que, com um rígido puritanismo religioso e forte instinto de trabalho
e colaboração coletiva proveniente dos seus colonos ingleses, segregou
o elemento africano, "aqui a luxúria e o desleixo social aproximaram
e reuniram as raças". Somos uma sociedade amorfa gue, quando
da independência, ainda não tinha se formado como nação, sendo "simples
aglomerado de moleculas humanas", produto das paixões desenfreadas,
da busca da aventura e da ganancia por riquezas fáceis (Prado, 1944:
113-175).
Os instintos da ambição do ouro e da sensualidade livre que dominaram
toda a "psicologia da descoberta" nunca foram geradores
de alegria, nos legando, para Prado, um povo triste, melancólico,
resultado da desilusão do ouro e da fadiga - "na luta entre
esses apetites - sem outro ideal, nem religioso, nem estético, sem
nenhuma preocupação política, intelectual ou artística - criava-se
uma raça triste. A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia
dos que vivem na idéia fixa do enriquecimento - no absorto sem finalidade
dessas paixões insaciáveis - são vincos fundos na nossa psique racial"
(ibid.: 106).
Desmarcara Paulo a "tradição de mandonismo", a "cumplicidade
dos apaniguamentos eleitorais", o "consórcio das funções
administrativas com os interesses mercantis", o bacharelismo
de uma cultura intelectual que "não existe, ou finge existir",
o vício nacional da imitação - "imitação quer dizer importação.
Nesta terra, em quase tudo dá, importamos tudo; das modas de Paris
- idéias e vestidos - ao cabo de vassoura e ao palito" (ibid.;
180-181).
No seu "Retrato do Brasil", Paulo revela-se um paladino
da modernídade, combatendo o "mal romantico" que, como
uma doença, tomou conta deste "organismo precocemente depauperado"
após a independência e que está nos afastando da "revolução
modema" que transforma o mundo, nos colocando "à margem
dos grandes caminhos mundiais da navegação e da aviação" (ibid.:
135,188).
Sérgio D. de Holanda, também participante de 1922, inicia seu clássico
livro "Raízes do Brasil" (1936) sublinhando as raízes
luso, ibérica, donde se origina "a forma atual de nossa cultura".
Desta matriz fundamental, que na sua origem é também mestiça - pois
a península ibérica é "um dos territórios-ponte pelos quais
a Europa se comunica com os outros mundos" - recebemos a herança
de uma "cultura da personalidade" em que os vínculos interpessoais
são os mais decisivos, o que leva à constituição de uma estrutura
social 'Trouxa" e à repulsa de "toda moral fundada no
culto ao trabalho", traços que foram acentuados pelo latifúndio
escravista. Daí o espírito de aventura, de enriquecimento sem muito
sacrifício, predatório com que o português veio para cá - "o
que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza
que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho (...) efetuado,
de resto, com as mãos e os pés dos negros" (Holanda, 1963:
4-42).
Nesta civilização de raízes rurais que os portugueses aqui implantaram
e que predominou sobre o urbano até a abolição, mas cujos reflexos
observamos ainda, prevaleceu a família patriarcal - de acordo com
Sérgio - a qual fornece nosso estilo político arcaico, resultado
da mera ampliação do círculo familiar - "a família colonial
fornecia a idéia mais normal do poder, da respeitabilidade, da obediência
e da coesão entre os homens. O resultado era predominarem, em toda
vida social, sentimentos próprios à comunidade doméstica, naturalmente
particularista e antipolítica, uma invasão do público pelo privado,
do Estado pela família". Neste ambiente avesso a "qualquer
ordenação impessoal da existência" imperava o caudilhismo,
a oligarquia - "que é o prolongamento do personalismo no espaço
e no tempo" - e as práticas patrimonialísticas. Sérgio usa
aqui da distinção weberiana entre patrimonialismo e burocracia:
"para o funcionário 'patrimonial', a própria gestão política
apresenta-se como assunto de seu interesse partisular; as funções,
os empregos e os benefícios que deles aufere, relacionam-se a direitos
pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede
no verdadeiro Estado burocrático (...). A escolha dos homens que
irão exercer funções públicas faz-se de acordo com a confiança pessoal
que mereçam os candidatos, e muito menos de acordo com as suas capacidades
próprias. Falta a tudo a ordenação impessoal que caracteriza a vida
no Estado burocrático". Aqui as constituições são "feitas
para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas,
tudo em proveito de indivíduos e oligarquias" - qualquer semelhança
com o Brasil atual não é mera coincidência! A síntese deste passádo
colonial-agrário é o "homem cordial", que se relaciona
"com o coração", este 'traço definido do caráter brasileiro"
que se expressa pela sua "Ihaneza no trato", na "hospitalidade"
e na "generosidade" (ibid.: 69-212) - não se tratando
do "homem bondoso", esclarece Sérgio em sua polêmica com
Cassiano Ricardo (que afirma ser a "bondade natural do brasileiro"
a nossa contribuição ao mundo, que o brasileiro é o "conciliador
plástico entre todos os conflitos sociais, ideológicos, étnicos,
econômicos") (Ricardo, 1963: 203).
Esta cordialidade, porém, não é virtude "definitiva",
devendo ser superada com a "progressiva urbanização" -
"o homem cordial se acha fadado provavelmente a desaparecer,
onde ainda não desapareceu de todo. E às vezes receio sinceramente
que já tenha gasto muita cera com esse pobre defunto" (ibid.:213).
Revela aqui Sérgio o seu tom modernista quando afirma-que transitamos
lentamente para um sistema urbano "cujo sentido parece ser
o do aniquilamento das raízes ibéricas de nossa cultura". Vislumbra
ele um processo revolucionário que, iniciando-se com a abolição
de 1888, liquidará com os 'fundamentos personalistas e aristocráticos"
da nossa vida social, levando à "dissolução lenta, posto que
irrevogável, das sobrevivências arcaicas" (Holanda, 1963: 164,
175).
Gilberto Freire, na avaliação de Ortiz (1985), representa o ápice
da corrente interpretadora do Brasil como "país cadinho"
que começa a se forjar no final do século XJX na obra de Sílvio
Romero (1851-1914), Nina Rodrigues (1862-1906) e Euclides da Cunha
(1866 1909), precursores das ciências sociais do Brasil, fundando
uma interpretação do Brasil que sublinha o mestiço como definidor
da nossa identidade e responsavel pelo nosso atraso social. Com
Freire e sua magna obra "Casa grande & Senzala" (1933)
- em que disseca a formação da nossa híbrida sociedade patriarcal-agrária-escravocrata
e monocultora -, o Brasil ganha uma "carteira de identidade"
(Ortiz, 1985: 42), pois a mestiçagem passa a ser vista positivamente
- "a miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu
a distancia social que doutro modo se teria conservado enorme entre
a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala.
O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido
de aristocratização, estremando a sociedade brasileira em senhores
e escravos (...) foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais
da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata,
a cabrosha, a quadradona, a oitavona. tornando-se cáseiras, concubinas
e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente
no sentido de democratização social no Brasil" - sendo o brasileiro
definido como um homem sincrético, fruto do cruzamento de três raças
- "todo o brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na
alma, quando não na alma e no corpo - há muita gente de jenipapo
ou mancha mongólica pelo Brasil - a sombra, ou pelo menos a pinta,
do indígena ou do negro" (Freire, 1963: 7-8, 331, grifo nosso).
Influènciado pela antropologia culturalista norte-americana de
Boas, o mestre de Apipucos realiza, segundo a análise de Candido
(1978: xii), "uma ponte entre o naturalismo dos velhos intérpretes
da nossa sociedade" - como Gonçalves Dias (1823-1864), Sílvio
Romero, E. da Cunha e Oliveira Viana (1885-1951) - "e os pontos
de vista mais especificamente sociológicos que se imporiam a partir
de 1940".
Confirmamos aqui a avaliação de muitos críticos de Freire - Ortiz,
Mota (1980) e Bastos (1986) - de que ele é o grande difusor da ideologia
da mestiçagem, do mito das tres raças que se fundem harmonicamente
"híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas
da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações
de raça: dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural que
resultou no máximo aproveitamento dos valores e experiências dos
povos atrasados pelo adiantado"; a miscigenação é fruto da
"escassez de mulheres brancas [que] criou zonas de confraternização
entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos" - contribuindo
para escamotear o conflito social, pois a mistura de raças permite
a convivência pacífica dos opostos - "considerada de modo geral,
a formação brasileira tem sido (...) um processo de equilíbrio de
antagonismos (...) predominando sobre todos os antagonismos, o mais
geral e o mais profundo: o senhor e o escravo. É verdade que agindo
sempre, entre tantos antagonismos contundentes, amortecendo-lhes
o choque ou harmonizando-os condições de confraternização e de mobilidade
social peculiares ao Brasil: a miscigenação" (Freire, 1963:
151, 7, 116, grifo nosso).
Nestas três obras matrizes constatamos, para além dos antagonismos
de perspectivas, a afirmação de alguns traços básicos da sociedade
brasileira, tais como o da nossa herança cultural lusitana, da mestiçagem
do nosso povo, do ecletismo nas idéias. Se a procura da nossa identidade
leva-nos a resgatar a influência dos componentes culturais, isto
nao significa que concordemos com as teses fatalistas que pressupõe
deterministicamente a herança cultural com o responsável pelo nosso
"atraso". Porém, se queremos também romper com os economicismos
vulgares, é necessário perceber que o material. e o simbólico estão
imbricados um no outro, que a produção do "pao" é inseparável
da produção da "palavra" (de significados). Buscamos a
formulação de uma teoria que reconheça a complexidade e o mistério
da organização social, que compreenda que o fenômeno cultural -
de acordo com a análise de Canclini (1983: 39-78) - faz parte das
estruturas básicas da sociedade, possibilitando 'entender a própria
estrutura econômica, da qual os fenômenos simbólicos são parte".
Para Candini, a América Latina é uma sociedade fragmentada, o que
possibilita a reproduçaio da dominação burguesa: "em países
multiétnicos a construção da hegemonia, além de basear-se na divisão
em classes, assenta-se no manejo da fragmentação cultural e na produção
de outras divisões: entre o econômico e o simbólico, entre a produção,
a circulação e o consumo e entre os indivíduos e seu marco comunitário
imediato". Entretanto, a fragmentação das sociedades periféricas
e a "sobrevivência de elementos arcaicos" impõe uma maior
transparência da interdependência entre o material e o simbólico
pois nelas "as relações econômicas não se circunscrevem aos
espaços previamente fixados para ela - o mercado, os intercambios
- nem as atividades culturais estão fechadas em instituições especializadas",
nelas "o econômico e o simbólico se mesclam em cada relação
social, e se disseminam em toda a vida da comunidade".
De resto, a influência desta herança cultural é também constatada
por muitos, alguns dos quais examinaremos a seguir.Em sua ampla
síntese sobre a "História das idéias no Brasil" constata
Cruz Costa (1967: 22-23, 413-419) que os nossos traços de pragmatismo
e tolerancia - que permitem o convívio entre opostos - são provenientes
da herança hibérica (desta "zona de transição entre dois continentes",
escreve G. Freire, apud Costa) onde coabitaram cristãos, judeus
e árabes. Costa afirma também que nos- afastamos do espírito moderno
(até o advento do positivismo em nossas terras à partir da segunda
metade do século XIX) porque na nossa matriz ibérica ocorreu, após
o século XVII (coincidindo com a decadência econômica portuguesa),
o predomínio do pensamento católico (o jesuítico, para ser exato)
que, reagindo à reforma protestante, faz a cultura filosófica portuguesa
adormecer "no comentário teológico", fechando Portugal
"à renovação científica que se processava na Renascença".
É daí que herdamos a "retórica, o gramaticismo, a erudição
livresca". Daí que a marca dominante do nosso pensamento filosófico
é o ecletismo, "a longa e variada importação de idéias e de
doutrinas, aparentemente contraditórias"14. Esta antropofagia
de a tudo querer incorporar, cujo símbolo exemplar é Macunaíma -
que "trata de fartar-se de todas as comezainas, de todas as
frutas. Fala de indumentária, mas veste-se pouco (...) canta todas
as canções e dança todas as músicas. É o herdeiro ladino mas ignorante
de todas as culturas, de todos os instintos" (A. Muricy, apud
Costa) - deriva da condição colonial que por longo tempo fomos submetidos,
tendo uma correspondência, no plano econômico, nos contrastes da
coexistência do "mundo primitivo do sertão, a economia medieval
nas cidades do interior e a civilização moderna nas cidades".
A nossa "evolução sócio-cultural" se processou - na perspectiva
de Darcy Ribeiro (1985: 149) - por uma "modernização-reflexo",
pela "via da átualização histórica" em relação aos componentes
metropolitanos dominantes, o que acarreta uma permanente "defasagem
cultural". Apesar de discordar das teses do culturalismo antropológico,
reconhece Darcy que alguns aspectos desta defasagem provêm do próprio
atraso cultural português, o qual, "não tendo conseguido estruturar-se
como uma formação capitalista madura, nem se integrar na civilização
industrial, foi caindo em situação de dependência com respeito à
Inglaterra e afundando na pobreza até configurar-se ... como uma
área neocolonial". Conseqüência do obscurantismo português
foi a proibição de aqui se criar um sistema popular de ensino e,
menos ainda, um ensino superior (enquanto que a Espanha manteve
cerca de duas dezenas de universidades em suas colônias), o que
contribuiu para perpetuar nossa "estrutura social arcaica".
Esta influência lusitana é também confirmada por Zea (1976), o
qual esclarece ainda que, ao contrário dos hispano-americanos que
tratam de romper definitivamente com o passado colonial quando da
sua emancipação política, nós brasileiros acabamos mantendo alguma
forma de relação com a herança portuguesa, conseguindo conciliar
dois mundos que pareciam opostos, o passado colonial e o presente
nacional.
Para Antônio Candido (1985: 119) a "ambigüidade fundamental"
da nossa cultura é proveniente do fato de que somos "um povo
'latino', de herança cultural européia, mas etnicamente mestiço,
situado no trópico, influenciado por culturas primitivas, ameríndias
e africanas". Daí termos até a República Velha uma "cultura
de fachada, feita para ser vista pelos estrangeiros", que tinha
"seu propagandista no Barão do Rio Branco, o seu modelo no
estilo de Rui Barbosa e a sua instituição simbólica na Academia
Brasileira de Letras" (ibid.: 29).
Esta característica ornamental da nossa cultura, este ecletismo
- ou seja, a conciliação "no plano das idéias" - são decorrentes,
para Coutinho (1980: 67-74), da "via prussiana", do fortalecimento
no Estado em detrimento do "medium próprio da vida cultural:
a sociedade civil"; do intimismo de uma vida intelectual que
se desenvolve "à sombra do poder". Analisando a relação
entre a cultura brasileira e a cultura universal esclarece Coutinho
que, pelo fato dos pressupostos da nossa formação econômico-social
estarem situados no exterior, a penetração da cultura européia n30
encontrou aqui obstáculos prévios durante a época colonial. Assim,
citando A. Candido, afirma que "imitar, para nós, foi integrar,
foi nos incorporarmos à cultura ocidental, da qual a nossa era um
débil ramo em cresdmento. Foi igualmente manifestar a tendência
constante de nossa cultura, que sempre tomou os valores europeus
como meta e modelo".
Nossa história cultural é a história da assimilação mecanica ou
crítica - da cultura universal. Porém, se no início do nosso processo
cultural as idéias estavam "fora do lugar", com o aprofundamento
da industrialização "as idéias importadas vão cada vez mais
'entrando em seu lugar' ".
2.5. A polêmica marca da conciliação.
"Façamos a revolução antes que o povo a faça".
(Antônio Carlos)
Na busca por explicar quem somos para poder compreender as contradições
do Brasil atual, retoma-se contemporaneamente a polêmica das primeiras
décadas deste século quanto ao "caráter" do povo brasileiro,
suigindo diferentes interpretações quanto à origem e o significado
da nossa "índole de conciliação".
Em "Conciliação e reforma no Brasil" (1965) José Honório
Rodrigues (1913-1987) constata que, embora não seja verdadeiro que
nossa história é incruenta, predominou ao longo da mesma, particularmente
a partir de meados do século XIX, a política de conciliação exercida
personalisticamente por uma minoria. Para José Honório, a conciliação
é fruto do passado colonial, período onde se alternavam práticas
de conciliação e inconciliação, episódios cruentos e incruentos.
É deste período, quando pelo "terrorismo-amansamento"
os brancos europeus se relacionam com os índios, que surge um "povo
capado e sangrado" (expressão de Capitalismo de Abreu, 1853-1927).
A conciliação é produto também, aponta Rodrigues, da mestiçagem
que abrandou nossas relações sociais, abatendo resistências e rebeldias
(ibid.: 30-118).
A conciliação tem sido tanto uma forma de transação - tendo como
objetivo principal o "aplainar as divergências dos grupos dominantes",
e não, como poderia parecer, conceder benefícios ao povo - quanto
um eficiente instrumento utilizado pelas nossas elites para adiar
as reformas e sufocar as aspirações. Tem sido nossa tradição "querer
as reformas, mas não promovê-las", ou concedê-las no mínimo
de modo a evitar uma revolução.
Mas também tem sido nossa tradição, completa José Honório, articular
de forma ambivalente conciliação com inconciliação, o que se vislumbra
na permanente repressão aos movimentos populares, especialmente
os rurais - "nao havia conciliação com QS revoltados do meio
rural, onde se concentrava a grande maioria da população brasileira,
nem reforma" (ibid.).
A conciliação cultural advém, segundo Michel Debrun (1983: 14),
de uma mistura-compromisso entre valores heterogêneos ligados à
herança européia-indígena-africana. Apesar da dominação do elemento
europeu s,obre os outros, freqüentemente temos uma "simbiose
entre valores de diferentes origens", o que transforma os padrões
metropolitanos em "valores ideais", proclamados mas não
efetivamente encarnados. Além desta dimensão, temos também a "conciliação"
política - entre aspas porque para Debrun ela não corresponde a
um acordo entre atores de peso equilibrado, mas sim pressupõe o
extremo hiato econômico-culturalpolítico que separa, desde os primórdios,
as elites das camadas subalternas - arquétipo predominante da história
política brasileira e que se desenvolve para regular a relação entre
atores desiguais de modo a permitir, através da cooptação, a manutenção
da dominação-exploração dos mais fortes sobre os mais fracos.
Isto significa que a luta de classes no Brasil é - na avaliação
de Debrun profundamente atenuada, pois os setores dominantes têm
a capacidade de "bloquear os conflitos no nascedouro",
permitindo a reprodução da extrema divisão de classes sem rupturas
maiores. Isto não quer significar, é claro, que não existam classes
pois "o carater limitado da luta das classes no Brasil não
constitui a expressão de uma bondade congênita do homem brasileiro,
da sua recusa das soluções violentas etc...". Debrun critica
assim tanto as teses marxistas clássicas em suas ortodoxas interpretações
da luta de classes brasileira, quanto as teses culturalistas e seus
estereótipos sobre a "índole da nossa gente", o "caráter
mineiro"... (ibid.: 144-145, 51).
Debrun apresenta ainda, de forma muito lúcida, os cinco arquétipos
político ideológicos que têm existido ao longo da história brasileira,
dos quais têm se alternado como hegemônicos o arquétipo da conciliação
aqui sao expressões tanto o populismo quanto o coronelismo - e o
do autoritarismo desmobilizador - que surqe quando o anterior não
é mais suficiente para conter as contradições, tendo predominado
no Estado Novo e no regime militar pós-64. Além destes, temos o
arquétipo do liberalismo (que dominou o espaço político verbal de
meados do século XIX à República Velha), o do autoritarismo mobilizador
(expresso tanto no fascismo-integralismo quanto nas esquerdas e
pelo ISEB, ensaiando-se entre 1961 e 1964) e o messianico (é a forma
como os mais dominados reagem quando, não tendo mais nenhum espaço
político, pulam para o espaço místico)
Porém entendemos que Debrun é realista demais, quase que árido,
pois não aponta para nenhuma esperança-utopia, não se situando numa
perspectiva que proponha a luta por construir uma sociedade que
rompa com estes padrões históricos, e nem percebe (possivelmente
por estar demasiadamente restrito à academia) que se constitui uma
nova prática política, altemativa, de ounho socialista-democrático
e que ossila também entre os arquétipos do messianismo e do autoritarismo
mobilizador, a qual tem se expressado nas CEB's, no novo sindicalismo
e nos movimentos sociais em geral. Enfim, o extremo realismo de
Debrun torna-o prisioneiro das nossas tradições, Ihe proporcionando
uma aguda e pessimista - sensibilidade, impedindo-o de ver a política
como o espaço do indeterminado enquanto ato de liberdade.
Também Weffort critica duramente o falso e ardiloso realismo político
que nos coloca diante do aparente beco sem saída da prática conservadoraautoritária
que existe na política brasileira. Para Weffort (1984: 30), o verdadeiro
realismo político "consiste em ver os acontecimentos como 'cose
a fare'. Isso significa que nao apenas se pode, como dizia o poeta,
seguir o mesmo caminho de uma maneira nova, como também se pode,
no jeito novo de andar, inventar caminhos novos". Critica Weffort
as "tendências inelutáveis da história", a nossa tradição
de ambigüidade cínica15, a cultura do golpe da qual somos herdeiros,
o tratamento que é dado à lei e à democracia em nosso país. Ele
nao aceita o desvirtuamento da democracia e do direito presente
na ambigüidade entre democracia e autoritarismo (pois a democracia
é vista apenas como um instrumento para se atingir o poder despótico),
presente no cinismo tanto do distanciamento entre o que as intenções
proclamam e o que as práticas realizam, quanto no uso da lei como
pretexto para o arbítrio do poder- demonstra Weffort que aqui o
direito é apenas um conjunto de fórmulas acintosas preparadas para
justificar o uso ilegítimo da força (vide as leis que regulam o
"direito de greve", por exemplo).
Na sua hoje clássica análise do "Populismo na política brasileira",
Weffort (1980: 62-111) demonstra que o mesmo é "algo mais complicado
que a mera manipulação", sendo um fenômeno complexo que ressalta
a "complexidade das condições históricas em que se forma".
Examina ele também o desacordo entre uma cultura de fachada e as
práticas efetivas da nossa existência cotidiana, a coexistência
da ideologia liberal com um comportariiento oligárquico-tradicional.
Esta ambigüidade paradoxal é constitutiva do nosso modo de ser porque
se enraíza nos nossos padrões históricos que, diferenciados dos
clássicos padrões europeus e fundados na grande propriedade de terra,
formaram nosso Estado-Nação nos quadros de subordinação à expansão
mundial capitalista, no "ambito da crise do sistema colonial
e no contexto da emergência de um novo sistema de dominação internacional".
Ao analisar as relações sociais do Brasil contemporaneo, Roberto
da Matta (1985: 65-90) constata os padrões de ambigüidade e sincretismo
como definidores da nossa identidade. Para da Matta, retomando algumas
pistas propiciadas por Holanda, somos uma sociedade relacional,
desigual e heterogênea, onde o valor fundamental "é relacionar,
misturar, juntar, confundir, conciliar". Entre nós, esclarece
ele, é a relação que transforma o indivíduo em pessoa, enquanto
nos países desenvolvidos é a lei - "enquanto nos Estados Unidos
a idéia de comunidade está fundada na igualdade e na homogeneidade
de todos os seus membros, aqui concebidos como cidadãos, (. . .
) no Brasil, por contraste, a comunidade é necessariamente heterogênea,
complementar e hiérarquizada. Sua unidade básica não está baseada
em indivíduos (ou cidadãos)l mas em relações e pessoas, famílias
e grupos de parentes e amigos". Aqui, numa sociedade onde as
relações sao um elemento estrutural central, o favõr é básico, estabelecendo
"um meio de relacionar pessoas sem extinguir ou ameaçar sua
descontinuidade social, mas, ao contrário, reforçando-a".
As sociedades relacionais, esclarece da Matta, diferenciadas das
sociedades que passaram pela revolução individualista e instituíram
um único código de conduta fundado na Cidadania, possuem três códigos
de comportamento operando de forma simultanea e complementar: o
código da casa (que expressa o lado tradicional da nossa soçiedade,
fundado na família, na amizade e no compadrio); o código da rua
(que representa o pólo moderno, fundado no mercado, no formalismo
jurídico de leis uníversais e na burocracia); e o código sobrenatural
("que focaliza a idéia de renúncia do mundo com suas dores
e ilusões e, assim fazendo, tenta sintetizar os outros dois").
Assim, o fato de ter muitos espaços e muitas temporalidades que
convivem simultaneamente é o que singulariza a sociedade brasileira.
Parã da Matta trata-sé de superar as polarizações rigidas com as
quais as concepções dualistas interpretavam o Brasil, percebendo
que, no nosso caso, "mais importante do que os elementos em
oposição, é a sua conexão, a sua relação, os elos que conjugam os
seus elementos": "para mim, é básico estudar aquele '&'
que liga a casagrande com a senzala". E estas mediações são
bastante complexas:
não se trata de subordinar um pólo ao outro, nem de vê-los em oposição
antagônica onde o predomínio de um automaticamente exclui o outro
pólo, mas de percebê-los embebidos mutuamente, de perceber que entre
o preto e o branco "nós temos um conjunto infinito e variado
de categorias intermediárias em que o mulato representa uma cristalização
perfeita", que damos um "jeitinho" entre o sim e
o não, que a nossa comida básica é o "feijão-com-arroz".
Na política esta lógica relacional se manifesta como negociação
e-conciliação, na economia como uma curiosa combinação de uma forte
estatização com uma também vigorosa iniciativa privada, enquanto
que sua manifestação religiosa aparece "com a intrigante mistura
de catolicismo com religiões afro-populares" (ibid.: 41, 20-21,
120).
Também para Néstor Canclini (1988:82), um dos principais conhecedores
das culturas populares da América Latina, reside na "transação"
uma característica central dos povos latino-americanos, a qual está
presente no freqüente apoio das classes subalternas aos seus opressores,
na combinação de práticas científicas e tradicionais (ir ao médico
e ao curandeiro). De modo geral, estas transações possuem tal assimetria
que levam sobretudo à "aceitação e à 'solução' dos problemas
no interior dos limites estabelecidos pelas classes dominantes".
Em muitos casos, entretanto, elas significam "reacomodações
para preservar a identidade. Em outros, ainda, como único recurso
para manter espaços de desenvolvimento social ou político independentes".
Canclini procura demonstrar que, no caso da cultura popular, a
questão chave reside no modo com que ela interage com a cultura
dominante, e não na perspectiva maniqueísta que afirma a relação
bipolar entre ambas tão a gosto das "teorias dos elevadores"
que acreditam nas classes sociais como "grupos compactos que
só sobem ou descem" e que não se relacionam interpessoalmente.
Então não se trata de saber se as culturas populares são uma alternativa
ou se são "sobrevivências pré-capitalistas em processo de extinção,
incapazes de atuar como agentes transformadores", mas sim de
estudar"os processos de continuidade e descontinuidade, de
alianças e conflitos, entre o 'tradicional' e o 'moderno"'
(ibid.: 70 79)16.
Já para Marilena Chauí (1986: 54-135), discordando tanto de da
Matta quanto de Canclini, este caráter ambíguo da cultura popular
- mesola de "Conformismo e resistência" à cultura dominante,
é proveniente da luta de classes da sociedade brasileira, a qual
não está presente apenas nos momentos de confronto direto entre
as classes mas se insere no cotidiano onde a violência é camuflada,
invisível sob o paternalismo-clientelismo, sob as relações de favor
e tutela que muitos consideram "naturais" e exaltam como
"qualidades" do "caráter nacional". Para ela,
o autoritarismo em nossa sociedade é "a regra e expressão das
relações sociais", forçando "os indivíduos aos sistemas
de favor e tutela". Isto leva à indistinção entre o público
e o privado, cuja expressão "sacrossanta" é o "jeitinho",
"burla e transgressão permanentes que transformam em 'inventividade'
o jogo autoritário do favor, da patronagem e da clientela, reforçando
o círculo de ferro de arbítrio-transgressão-arbítrio".
Nesta mesma perspectiva, lanni, que também constata a "ambigüidade
da sociedade brasileira" (lanni, 1972: 224), nos mostra que
faz parte da ideologia das classes dominantes a tese da "fragilidade"
da sociedade civil brasileira, "incapaz" de resolver por
si mesma suas crises. Isto está afirmado numa historiografia que,
fazendo a "crônica dos vencedores", privilegia a "tradição
brasileira de conciliação", mas faz "pouca, ou nenhuma,
referência às classes e forças políticas subordinadas", considerando
como "precárias, débeis, incapazes" as diversas expressões
reais do nosso povo, esquecendo a outra tradição das lutas pelas
liberdades presente na Confederação do Equador, na Cabanagem, Sabinada,
Balaiada, na Revolução Farroupilha, no Abolicionismo, em Canudos,
Contestado, nas greves de operários nas fábricas, na greve dos 300
mil em São Paulo, nas lutas das Ligas Camponesas ... (lanni, 1984:
13-40). Entendemos que não se trata de contrapor uma tradição à
outra, mas sim de perceber esta simbiose, esta presença simultanea
de elementos aparentemente antagônicos em nossa história-cultura
que permitem o amálgama paradoxal da sociedade brasileira.
CONCLUSÃO: POR UM NOVO MARCO TEÓRICO NA ANÁLISE DA SOCIEDADE
BRASILEIRA
Se queremos entender a "nossa identidade" tanto para
explicar porque uma sociedade altamente desigual como a brasileira
não explodiu até hojes quanto para encontrar pistas para caminhos
altemativos para os impasses contemporaneos, não podemos ficar presos
aos parametros disciplinares desta ou daquela ciência em particular,
nem restritos aos limites do cartesianismo mutilador do projeto
científico modemo. Os atuais paradigmas teóricos unidimensionais,
que tanto não captam a complexidade de uma sociedade altamente ambígua
e contraditória, quanto a simplificam reducionisticamente (ora apegando-se
a um culturalismo ingênuo, ora a um economicismo-politicismo míope),
impedem a percepção desta permanente cumplicidade entre o dominador
e o dominado que absorve nossas enormes tensões sociais.
É preciso compreender que estes padrões de ambigüidade cultural
(herança cultural híbrida, mestiçagem, ecletismo), política (conciliação,
cumplicidade) e econômica (coexistência de modemos setores mercantis
com "atrasados" setores não mercantis) estão amarrados
entre si, sendo coerentes com a nossa contraditória formação através
de um processo de modernização-conservadora. É este sincretismo
original, matriz de nossa sociedade, que acomoda e reproduz as absurdas
contradições aparentemente incompatíveis, impedindo a ruptura revolucionária
de um tecido social altamente explosivo.
É preciso perceber esta complexidade que caracteriza as sociedades
latino-americanas, que são multi-étnicas, híbridas, onde a tradição
e a modemidade coexistem, redefinindo-se, reproduzindo-se mutuamente
mas de forma diferenciada, onde o "primitivo" está subordinado
ao mercantil. Desde as primeiras interpretações teóricas sobre a
nossa realidade, observa-se a presença persistente de considerações
duais que reconhecem (apesar do dualismo) a heterogeneidade estrutural17
deste subcontinente: casa grande & senzala; arcaico x modemo;
país legal x país real; subdesenvolvido x desenvolvido; pré-capitalismo
x capitalismo; rural x industrial. Aqui o processo de expansão do
mercado e de incorporação e difusão do "progresso técnico",
contrariando as expectativas, não tem generalizado para toda a população
as relações mercantis, homogeneizando a sociedade (assim como nos
países "desenvolvidos"), mas sim aprofundado as diferenças
entre os incluídos e os excluídos no mundo modemo, sem ocorrer desintegrações18.
Já em "Dependência e Desenvolvimento na América Latina",
Fernando H. Cardoso e Enzo Faletto (1981: 139) vislumbravam a "situação
de ambigüidade" típica dos países perifericos, proveniente
da dinamica social "mais complexa" dos mesmos, onde internamente
as forças políticas buscam "ganhar certa autonomia", mas
ficam limitadas pelas vinculações econômicas externas. É esta situação
que evidencia "as limitaçoes da utilização dos esquemas teóricos
relativos ao desenvolvimento econômico e à formação da sociedade
capitalista dos países hoje desenvoividos para a compreensão da
situação dos países latino-americanos", exigindo a elaboração
de novos conceitos que permitam compreender nossa realidade - forja-se
aqui o difundido conceito de "dependência". Nessa mesma
perspectiva, Cardoso (1975: 100), no seminário sobre "classes
sociais e crise política na América Latina" (Oaxaca, México,
1973), criticava uma concepção antidialética onde as classes sociais
não sao pensadas no seu movimento, nas suas contradições, mas consideradas
estaticamente. Para este "marxismo estático", "pedra
é pedra, água é água e não existe sequer o refrao: água mole em
pedra dura, tanto bate até que fura".
Esta ambigüidade dificulta a compreensao da nossa realidade caso
mantenhamos os esquemas eurocêntricos de análise social que mitificam
o caminho para o "progresso". Adota-se freqüentemente
um paradigma de desenvolvimento que desvaloriza as demais expressões
sociais, pois suas próprias categorias são inadequadas para a caracterização
de nossa complexa sociedade: ser "moderno" é bom, "arcaico",
mau; pré-capitalista é conservador, mas capitalista é dinamico19
De modo geral, apesar de todas as divergências entre as diversas
correntes do pensamento brasileiro e dos amplos debates quanto ao
dualismo, à situação de dependência e ao modo de produção pertinente
à nossa realidade, todas estas correntes se situam sobre o mesmo
pano de fundo civilizatório, comungando da ideologia desenvolvimentista
de que o Brasil deve se modernizar, defendendo o caminho da industrialização
como o bnico válido para éste país. Tal visSio mecanicista impede
de se compreender a importancia da existência da diversidade dos
modos de vida, levando a interpretar o fato da heterogeneidade cultural
de uma sociedade como mero obstáculo ao desenvolvimento. Assim,
um país com uma economia dual ou com -"populações vivendo em
áreas não incluídas no mercado, é, pordefinição, subdesenvolvido
ou mesmo atrasado"(Ramos, 1981: 185). A conseqüência desta
avaliação é a implementação de uma "política de desenvolvimento"
que leva à concentração da população em grandes núcleos urbanos
bem como a "diluição da identidade cultural dos cidadãos e
a destruição da competência artesanal que os capacitava a garantir,
autonomamente, a própria e significativa sobrevivência".
Porém, apesar de reconhecermos as caraderísticas específicas de
nossa sociedade e que a mesma possui uma dinamica socio-política
econômica-cultural própria20, com o que rompemos com as teses dedutivistas
que postulam um determinismo exógeno e a transposição dos modelos
clássicos europeus, não podemos reduzir a sociedade brasileira (e
a latino-americana) à sua singularidade e realizar apenas uma análise
intema da mesma, separando-a da expansão civilizatória ocidental
modema, afirmando que aqui existe algo essencialmente original.
Temos de pensar, como indica Cardoso (1975: 104), a estruturação
social da América Latina como algo distinto, embora relacionado
com as sociedades metropolitanas, que a relação entre as forças
externas e internas é um "todo complexow' (Cardoso; Faletto,
1985: 22). Não há como não reconhecer que o nosso horizonte civilizatório
é o da moderna sociedade industrial. É a modemídade (entendida como
"tempo eixo" em torno do qual, ainda que deformadamente,
estamos nos moldando), sob a forma da sociedade industrial burguesa,
que é hegemônica em nossas terras, porém redefinida como modernidade
tupiniquim - Celso Furtado (1984: 22) falará em "modemização
dependente", enquanto que Darcy Ribeiro (1985:115) em "modernização
reflexa" - que aqui se implanta, transfigurada como modernização
conservadora sob as marcas da dependência e da heterogeneidade estrutural.
Infelizmente estamos numa corrida imitativa, buscando alcançar
e reproduzir o molde desenvolvimentista dos países do Primeiro Mundo,
com os nossos modelos explicativos presos a uma visão modernizante
mutiladora da vida. Não há razão para o projeto de emparelhamento
com centros irradiadores da civilizacão ocidental tanto porque o
nosso processo de "modernização" difere profundamente
do primeiro mundo, quanto porque este projeto civilizatório está
sendo colocado em cheque por uma grave crise. Não se trata de afirmar
que devemos ou nao realizar a revolução burguesa no Brasil, de modernizá-lo
ou não, mas de compreender a forma particular como a civilização
moderna impacta e é recriada aqui nos trópicos, o que exige uma
re-elaboração das categorias teóricas. A teoria da dependência,
que logrou captar melhor a complexidade da dinamica social latino-americana
superando o dualismo que opunha o arcaico ao moderno, o exogenismo
e o reducionismo economicista, por nao fazer uma crítica epistemológica
dos conceitos utilizados, nao elaborou um projeto político que vislumbrasse
o potencial emancipador dos setores "arcaicos", nem percebeu
claramente a gravidade da cnse civilizatória em que estamos insendos,
permanecendo num marco modemizante-unidimensional (desenvolvimento
industrialização). A crítica epistemológica é fundamental, tanto
devido a que os conceitos constnuídos em outras terras evocam teleologicamente
um futuro inevitável e, conseqüentemente, uma anterioridade que
deve ser superada, quanto para perceber a carga de racionalidade
instrumental que possuem nossos referenciais teóricos.
Texto reproducido por Noticias de Antropologia y Arqueologia con
autorizacion del autor. Fue procesado por metodos de OCR, por lo
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