Comunidades e identidades de novo tipo
Carlos Magno Mendonça
Mestre em Comunicação Social
Universidade Federal de Minas Gerais Brasil
Macomendonca@uol.com.br
O desenvolvimento da cibercultura e suas novas maneiras de perceber
e experimentar não levou à colonização do mundo da vida pelos dispositivos
tecnológicos. Ao invés de abordar tal fenômeno sob a forma de uma
dicotomia que separa e opõe as formas da vida social e as formas
técnicas, trata-se, ao contrário - tal como o faz Pierre Lévy -
de compreender a cibercultura como um verdadeiro movimento
social, com seu grupo líder (a juventude metropolitana escolarizada),
suas palavras de ordem (interconexão, criação de comunidades virtuais,
inteligência coletiva) e suas aspirações coerentes." (LÉVY.1999)
Para entendermos a proposta de Lévy precisamos nos lembrar que
a cibercultura não promoveu a anulação do social.. Ao contrário,
ela trouxe para seu interior o diálogo entre a forma técnica e o
laço social, o que nos oferece a oportunidade de pensá-la para além
dos domínios apenas do tecnológico. Para tal fim, tomaremos como
objeto de análise algumas experiência, que reúne as condições necessárias
à nossa reflexão.
Em uma primeira reflexão sobre a cibercultura, Lévy afirma:
"A hipótese que levanto é a de que a cibercultura leva
a co-presença das mensagens de volta a seu contexto como ocorria
nas sociedades orais, mas em outras escala, em uma órbita completamente
diferente. A nova universalidade não depende mais da auto-suficiência
dos textos, de uma fixação e de uma independência das significações.
Ela se constrói e se estende por meio da interconexão das mensagens
entre si, por meio de sua vinculação permanente com as comunidades
virtuais em criação, que lhe dão sentidos variados em uma renovação
permanente." (LÉVY.1999.P.15)
Estas comunidades virtuais, que a primeira vistas podem parecer
desterritorializadas, fundam-se nas interrelações da dimensão comunicativa.
O sentido produzido no circuito comunicativo dentro destas comunidades
sofre interferências e interfere nas experiências dos sujeitos.
De acordo com Cláudia Fonseca devemos, nestas circunstâncias, nos
ater não apenas aos processos de produção/recepção/distribuição
das mensagens, mas na relação que se estabelece entre os sujeitos.
Para Fonseca, os circuitos desenvolvem-se em dois planos decorrentes
da mobilidade entre as múltiplas instâncias comunicativas.
Em um primeiro plano, circuitos comunicativos seriam como caminhos
ou redes de relações que aparecem para os sujeitos como possibilidades
no enfrentamento de situações concretas. Em outro plano, os circuitos
seriam também caminhos através dos quais o sentido se produz e como
tal aparecem como possibilidades dentro de uma rede possível de
sentidos. (FONSECA.1998:40)
No mês de dezembro de 1997, crianças e adolescentes da periferia
de duas grandes cidades brasileiras, geograficamente bem distantes,
viviam uma experiência bastante diferente das experimentadas até
então. Iriam registrar, discutir e relatar os traços e elementos
do cotidiano da comunidade em que estavam inseridos e trocar estas
informações com outra comunidade, que possui uma estrutura semelhante,
na busca de algum tipo de interação.
Até então nada de novo. Poderíamos estar falando de um projeto-pedagógico
desenvolvido por escolas públicas das duas comunidades que, através
de uma prática epistolar, promovesse uma troca de impressões entre
os participantes. Porém, este projeto contava com uma série de elementos
que o caracterizariam de modo um tanto distinto das experiências
desenvolvidas até então com as referidas comunidades no sentido
de conhecer, experimentar e apreender. Toda a troca aconteceria
via rede internet. Neste caso, vislumbramos um alcance diferenciado
da cibercultura que estaria produzindo um curto-circuito em dois
sentidos: o primeiro, na emergência de nova formas de socialidade,
que traz em seu bojo a interrelação entre o pluralismos das sociedades
contemporâneas e as novas máquinas informáticas e comunicacionais;
o segundo, as tecnologias que compõem o ciberespaço aparecem como
espaço do saber, de produção e disseminação do conhecimento, compostas
por uma carga significante que mescla semióticas heterogêneas e
múltiplas linguagens técnicas, traços de significações icnográficas,
simbólicas ou diagramáticas, operações que algumas vezes aproximam-se
de um comportamento analógico instrumento privilegiado na
educação, na retórica e na ciência e outras de uma reação
digital nas manipulações simbólicas e nas operações de maior
precisão .
As comunidades de que estamos falando são Vigário Geral, na cidade
do Rio de Janeiro, e Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte. O projeto
ao qual estamos nos referindo chama-se Latanet: da latinha à
internet e é desenvolvido na Associação Educacional e Cultural
Oficina de Imagens, pelos jornalistas Bernardo Brant, Luiz Guilherme
Gomes e Paula Fortuna, que o definem da seguinte forma:
O projeto "latanet" foi desenvolvido para ser aplicado
em sistemas e redes de ensino para intervir em diferentes contextos
socioculturais, com o objetivo de subsidiar a criação de núcleos
de comunicação, onde os sujeitos envolvidos possam produzir e trocar
informações e construir seu conhecimento. A criação dos núcleos
de comunicação dinamizam a instituição e as relações na comunidade,
melhorando a qualidade do processo educativo e a qualidade de vida.
O nome "latanet da latinha à Internet" faz
alusão a um percurso que parte das câmeras escuras utilizadas pelos
pintores no Renascimento e vai até a imagem digital, que liga diferentes
formas de produção de informações utilizadas pelo homem, radicalmente
opostas no tempo e no espaço. Realiza um diálogo entre suportes
técnicos e linguagens diferentes: das latinhas de alumínio construímos
câmeras fotográficas artesanais e produzimos imagens; com a Internet
criamos comunicação a partir destas imagens.
O grupo realizava oficinas com os participantes objetivando discutir
alguns pontos: como vemos nosso espaço hoje e no futuro? Como a
mídia trata nosso espaço? De acordo com as respostas, são analisadas
as possibilidades de produção de informações através de diferentes
meios e tecnologias disponíveis no cotidiano, a partir da ótica
de cada sujeito.
O participante produz imagens fotográficas de seu espaço e apresenta
alguns textos sobre elas com fins a estimular a reflexão e interpretação
de imagens, a construção da informação e a sua relação com seu espaço.
Fotos e textos são digitalizados e através de correio eletrônico
estabelecem comunicação entre diferentes grupos.
Também no ano de 1997, a psicanalista Halina Grynberg publica o
texto @ e o corpo próprio: os caminhos virtuais da pulsão,
que narra a trajetória de um paciente homossexual em busca de um
corpo próprio através de uma narrativa transferencial na comunicação
virtual. Como psicanalista, Halina trabalha conjuntamente com o
paciente o tempo e o espaço que foram reposicionados eletronicamente
para encontrar o trajeto que, como ela mesma diz, vai da demanda
pelo todo à construção de um sujeito desejante em convívio com suas
escolhas eróticas e parciais.[1]
Dentro dessa perspectiva, o trabalho com este paciente suscitou
na autora algumas questões tais como:
Como localizar estruturalmente as alternâncias identificatórias
produzidas por este paciente? Qual o lugar do significante da demanda
nesta travessia por ciclos fetichistas? Como redefinir a direção
da cura no momento em que se faz uma prefiguração da castração,
em direção a um lugar próprio na dinâmica do desejo? Que entrelaçamento
foi promovido pelo sujeito entre os registros simbólico, imaginário
e real, com o campo da comunicação virtual, e que lhe permitiu a
reconstrução de sua posição subjetiva, de seu corpo, de sua identidade
sexual e indicou-lhe a escolha de objetos de desejo? (GRYNBERG,
1997)
O paciente era então um homem de mais de 50 anos, com boa formação
cultural, professor universitário, grande conhecimento em música
erudita, estudou desenho e pintura. Morava com a mãe, de 78 anos,
e um irmão mais novo que era quem administrava financeiramente os
bens da família. A mãe doente era cuidada pelo filho mais velho
(o paciente) que também assumiu em casa o papel da mãe, cuidando
de tudo em casa e só saindo para dar suas aulas. Apenas ele cuida
da mãe, ninguém mais é confiável.
Seu aspecto físico na primeira entrevista com a psicanalista, foi
definido por Halina do seguinte modo:
Muito sujo, barba por fazer, arrastava os pés com unhas escuras
em sandálias velhas. Os trejeitos faciais, a voz, seus movimentos
corporais e a roupa que vestia sugeriam imitações caricaturais de
homossexualidade. Usava um traje de caráter indefinido, nem masculino
nem feminino, costurado com as próprias mãos. Consciente
do impacto que provoca, formula sua primeira interpretação. Desculpa-se
pela sua aparência. Não encontrava roupas para si em lojas,
elas não combinavam com seu corpo. (GRYNBERG,
1997)
No processo de construção de uma nova subjetividade e de recuperação
da auto-estima o paciente cria a personagem Cl@udi@:
um significante que lhe permite frequentar salas heterosexuais e
provocar desejos em outros homens. Essa personagem é uma das várias
etapas pelas quais o paciente irá trafegar até reconstruir seu próprio
corpo, sua sexualidade, etc..
Diferentemente um do outro, pois enquanto um escancara a identidade
o outro funciona como o véu que a mascara, o projeto Latanet
e o caso narrado por Halina apresentam-se como experiências privilegiadas
para pensarmos questões como o surgimento dos meios tecnológicos
alternativos que ampliam o acesso à fala produzindo, conseqüente,
a abertura de brechas na noção de monopólio, alternâncias identificatórias,
demandas significantes e produção de identidades.
A ampliação dos campos de ação das tecnologias informáticas comunicacionais
tem reconfigurado, exponencialmente, todos os âmbitos de nossas
relações. Esta ampliação nos convida a relacionar temas como a subjetividade,
a sociabilidade, a socialidade, a comunicação, a cognição, a memória,
o corpo, dentre outros. Ainda que tangencialmente, o que percebemos
é a possibilidade da construção de múltiplas linguagens na rede
computacional que debruçam-se por vezes sobre a necessidade de apresentar
ou fazer ver os grupo a que estão relacionadas e, em outros momentos,
servir-se da viabilidade de reconstruir a imagens de indivíduos
ou grupos ou mesmo omiti-los.
Há em experiências como a do Latanet e da psicanlista Halina
Grynberg, um entrelaçamento ou uma apropriação da forma técnica
pelo laço social. Como afirma André Lemos:
A técnica, paradoxalmente, vai desempenhar um papel muito importante
nesse processo. Ao invés de inibir as situações lúdicas, comunitárias
e imaginárias da vida social, as novas tecnologias vão agir como
vetores dessas situações. A forma técnica é obrigada a negociar
com o social. Podemos falar numa espécie de transformação da apropriação
técnica do social, típica da modernidade, para uma apropriação social
da técnica, mesmo que de forma complexa e imprevisível. Vários sociólogos
da técnica mostram como esse segundo movimento de apropriação é
freqüente no processo tecnológico de uma cultura, mas que parece
radicalizar-se no limiar do século XXI. Entramos assim na cibercultura.
(LEMOS.1999)
Há uma tradição nas ciências sociais que lida com duas noções utilizadas
para explicar as relações associativas entre os sujeitos: Gemeinschaft
(comunidade) e Gesellschaft (sociedade). Retomando um dos
pensadores dessa tradição - Ferdinand Tönnies - Patrick Tacussel
ressalta que a comunidade apresenta-se sob a forma de experiência
compartilhada, ou seja, os indivíduos se reconhecem por compartilharem
uma série de valores como o sentimento de segurança ou insegurança,
a amizade, os valores não institucionais, o amor, a crença, determinadas
atitudes ou hábitos, enfim fatores que determinam aproximação ou
distanciamento. A noção de comunidade está ligada à noção de compartilhamento,
de pertencimento a determinado lugar vivido como espaço de relações
intersubjetivas.
Nesta tradição, a noção de comunidade está diretamente ligada a
noção de pertencimento comum a um determinado território. As comunidades
envolvidas no projeto Latanet figuram mais como local de
produções simbólicas do que meramente demarcações territorias. As
duas comunidades envolvidas são, mais do que lugares de moradia,
espaço de representações do vivido. Constituem, tal com propõe Rousiley
C. M. Maia, identidades. Para Maia
Comunidade, no sentido sociológico tradicional, refere-se ao
agrupamento social que se caracteriza por acentuada coesão, baseada
no consenso espontâneo dos indivíduos que o constituem, consenso
este derivado de valores compartilhados. A identidade, pois, tende
a ser definida pelo pertencimento a uma cultura comum, mapeada literalmente
em localidades que definem um quadro básico de referências. Ao longo
da modernização das sociedades, as noções de solidez e homogeneidade,
anteriormente relacionados à noção de comunidade, são substituídas
pela noção de identidades situadas (de pessoas ou grupos) em locais
que poderiam estar dispersos.(MAIA.1999:14)
Neste sentido, começamos a perceber que ao transportarem para a
rede internet seu discurso - expresso nos registros fotográficos
e nos textos que analisam o espaço em que vivem e os seus traços
identitários, os participantes do projeto Latanet produzem
uma comunidade de novo tipo, desterritorializada por definição,
mas que engendra uma reterritorialização quando os sujeitos envolvidos
começam a estabelecer relações que irão conferir um traço de enraizamento,
de pertencimento a um grupo, de produção de identidade.
Esta comunidade de novo tipo é capaz de produzir um "olhar
para dentro", estabelecer com o dentro uma outra relação a
partir do fora, fortalecer sua identidade que é produzida em diferentes
locais, ou seja apresentar ao outro a diferença e reconhecer no
outro a semelhança. Estas comunidades traçam um novo mapa de seus
antigos territórios geográficos e existenciais.
Bibliografia
FONSECA, Cláudia G. A comunicação e a produção de sentido sobre
a saúde. IN: Revista Geraes, Belo Horizonte, nº 49, p. 38-43, maio/98.
LEMOS, André. Santa Clara Poltergeist: cyberpunk
à brasileira? www.facom.ufbabr/pesq/cyber/lemos/.
24/05/1998.
_____________. Ciber-socialidade - Tecnologia
e vida social na cul- tura contemporânea. www.facom.ufbabr/pesq/cyber/lemos/.
15 05/1999.
_____________. Ciber-socialidade - Tecnologia e vida social
na cultura contemporânea. IN: RUBIM, AAC. et al. (org). Práticas
discursivas na cultura contemporânea. São Leopoldo: Unisinos,
1999. p.9-22
LEVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência - O Futuro do Pensamento
na Era da Informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
__________. Uma Ramada de Neurônios. Caderno Mais, Folha
de São Paulo. São Paulo, 15 de nov. 1998.
__________. O que é o virtual?. Rio de Janeiro: Editora
34, 1998.
__________. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.
MAIA, Rousiley. A identidade em contextos globalizados e multiculturais:
alguns dilemas da igualdade e da diferença. IN: Geraes Revistas
de Comunicação. Nº 50. Departamento de Comunicação Social da
Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade Federal
de Minas Gerais, 1999.
TACUSSEL, Patrick. Autoridade e autenticidade da palavra. IN: Geraes
Revistas de Comunicação. Nº 50. Departamento de Comunicação
Social da Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade
Federal de Minas Gerais, 1999.
[1] GRYNBERG, Halina.
@ e o corpo próprio: os caminhos virtuais da pulsão . Jornada
Os destinos da pulsão: sintoma e sublimação Escola Brasileira
de Psicanálise - Seção Rio. 15 de novembro, 1997
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