Turismo educativo no Brasil:
As escolas de samba como possibilidade de intercâmbio cultural
Profa. Dra. Cristiana Tramonte
Professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina
– Mestre em Educação e Doutora em Ciências Humanas
Contato: tramonte@ced.ufsc.br
Resumo
A atividade turística com caráter
educacional e cultural apresenta grandes possibilidades neste final de milênio,
quando se busca aliar lazer ao re-conhecimento da diversidade cultural
como exercício de cidadania.
As escolas de samba,
longe de serem apenas um belo espetáculo plástico-musical, representam a trajetória
de luta de resistência do povo brasileiro contra a exclusão e os estereótipos.
Além disso, pela beleza estética e força cultural
são um valioso exercício de cultura, com o qual o turismo educativo pode
realizar grandes parcerias, auxiliando na promoção e na emancipação econômica
e social das comunidades que, há décadas, realizam o “espetáculo popular mais
belo da terra”, mas que, em geral, permanecem excluídas do acesso às riquezas
geradas por este.
Palavras-chave:
Identidade cultural
Carnaval
Escolas de samba
Turismo educativo
Turismo cultural
Introdução
O carnaval é uma vivência cotidiana
para o brasileiro. Em todas as classes sociais, em todos os momentos históricos
do último século, anualmente, repete-se sempre o rito do carnaval. Justamente
por ser tão próximo e tão cotidiano o carnaval apresenta tamanho fascínio:
faz parte de identidade, família, memória, nosso presente e, certamente, terá
lugar no futuro do povo brasileiro. No Brasil, ele ganha presença destacada
como o traço maior da identidade cultural do país. “O país do carnaval”, entretanto,
apresenta uma essência sob a capa da aparência pública do desfile.
Desvendar as relações,
os significados, as estruturas, os protagonistas, os valores, a história,
é falar muito do Brasil e seus atores fundamentais no processo de construção
social. Os primeiros estudos aprofundados sobre o carnaval datam das décadas
de 50 e 60, mas o tema permanece atual porque o carnaval brasileiro, longe
de identificar-se com manifestações folclóricas que repetem a tradição, recria-se
continuamente resultado de combinações de fatores diferenciados, ao mesmo
tempo em que influi e transforma estas relações.
Dentro desta complexidade são imensas suas possibilidades
como dinamizador de iniciativas do turismo educacional e cultural. Por trás
dos quatro dias de desfile, há todo um universo de relações humanas que pulsa,
vivo, durante o ano e que representa um importante fator de identidade para
as comunidades – geralmente pobres - que o organizam e lideram.
Aspectos da História do lazer carnavalesco no Brasil
A exemplo do que ocorreu
em vários lugares do Brasil, as formas carnavalescas vão adquirindo contornos
e importância como reflexos do momento histórico em que se inserem, ao mesmo
tempo em que são o seu motor. À medida em que a sociedade brasileira principiava
a sonhar com a passagem da condição agrária à modernidade da industrialização,
suas elites começam a aspirar a formas mais sofisticadas de divertir-se, buscando
espelhar-se na cultura européia. Em Florianópolis, o popular entrudo foi
superado pelas formas europeizadas de brincar o carnaval, consubstanciando-se
nas Sociedades Carnavalescas, que significou o lazer carnavalesco das elites.
Entretanto, ao escravo da antiga Desterro, hoje Florianópolis, não era permitido
participar de nenhuma destas manifestações carnavalescas. Será inicialmente
com os ranchos, cordões e blocos que os negros em Florianópolis principiarão
a participar do carnaval, mas sua presença definitiva e marcante se dará com
a criação das escolas de samba na década de 40, que se configurarão como um
dos principais instrumentos de inserção social das camadas populares de origem
negra.
A organização do lazer como possibilidade de exercício da cidadania
As camadas populares
de origem negra de Florianópolis, antiga Desterro, tiveram especial dificuldade
de organizarem-se; enfrentaram uma situação de preconceito social e racial
que permanecerá por muito tempo e que tornará ainda mais árdua a mobilidade
social dos negros no âmbito local. Este preconceito explica-se por vários
fatores estruturais específicos da formação econômica e histórica da região.
Um desses fatores é o elevado número de brancos pobres, o que os aproximava
na prática dos descendentes de escravos. A situação social similar e o receio
de que a aproximação colocasse negros e brancos em pé de igualdade de oportunidades,
fez com que os brancos intensificassem os atos de preconceito e afastamento
social visando marcar a diferenciação. Além do mais, o número de negros no
âmbito local é pequeno se comparado com o resto do país dada a formação econômica
de Florianópolis, o que agravava as dificuldades.
Este quadro, adverso
às camadas populares de origem negra porque pleno de barreiras sociais e raciais,
começa lentamente a reverter-se por iniciativa dos descendentes de escravos
que vão elaborar formas organizativas de caráter cultural as quais, paulatinamente,
vão adquirindo importância social e política. A iniciativa caberá principalmente
aos grupos de negros que possuem características determinadas, denominadas
por CARDOSO & IANNI como a “élite”: são os primeiros habitantes dos morros
da Ilha, descendentes dos antigos escravos, que possuem família constituída,
alianças com outros setores sociais e gozaram durante algum tempo de certo
prestígio entre as autoridades[1];
deste grupo de negros uma parte ascende aos extratos médios da sociedade,
apesar da maioria permanecer na pobreza.
Inicialmente, este
grupo organiza ranchos, cordões e blocos e no final da década de 40 e início
da década de 50, criam as escolas de samba Protegidos da Princesa e Copa Lord
buscando organizar e dar visibilidade social aos negros. As táticas iniciais
de penetração social dos negros em Florianópolis podem ser resumidas através
dos significados sugeridos pelos nomes das primeiras escolas de samba : proteção
(tutela) e nobreza (refinamento). O estabelecimento de relações através da
combinação e/ou altercação destes dois elementos serão as estratégias iniciais
para a abertura dos primeiros espaços.
De acordo com a mesma
lógica do processo que havia ocorrido no Rio de Janeiro duas décadas antes,
também os negros de Florianópolis vão progressivamente conquistando o espaço
do carnaval com as formas culturais afro-brasileiras, aproveitando os elementos
europeus dos desfiles das Sociedades Carnavalescas e imprimindo-lhes o ritmo
e a música de origem negra. As Sociedades Carnavalescas, organizadas anteriormente
pelas elites brancas da cidade, vão perdendo importância para as escolas de
samba que começam a delinear o perfil do carnaval local. Entretanto, nesta
primeira fase, que inclui as três primeiras décadas, serão basicamente as
camadas populares de origem negra que farão o carnaval das escolas de samba.
As classes médias e as elites permanecerão como espectadores.
Com o avanço cultural
propiciado pelas escolas de samba, amplia-se também o espaço político e social
das camadas populares de origem negra. Trata-se de um processo de construção
de hegemonia no âmbito cultural: se o carnaval era originalmente europeu,
vai configurando-se cada vez mais com seus traços afro-brasileiros, tornando-se
o símbolo nacional e identificando “brasilidade” com cultura de origem negra.
Neste momento, a ênfase dos desfiles se dá no aspecto rítimo-melódico: samba
no pé, ritmo elaborado da bateria, samba bem cantado, etc. Também no âmbito
local, o samba vai impondo-se no carnaval, entretanto, convive durante muito
tempo com as marchas carnavalescas, diferentemente do Rio de Janeiro, por
exemplo, onde as marchas desaparecem para dar lugar ao samba.
O fato de que as manifestações
culturais de origem negra conseguissem suplantar as formas europeizadas anteriores
do carnaval, não significou, entretanto, que a situação econômica do negro
em Florianópolis tivesse se alterado substancialmente, mesmo com o incremento
econômico da cidade na década de 60. Ao contrário, a situação do negro em
Florianópolis permaneceu quase a mesma do período pós-abolição e a cidade
aumentou de proporções crescendo o contingente de pobreza, com a vinda de
imigrantes inicialmente para os morros da cidade. Mas, o exercício cultural
dos negros através da escolas de samba significou um salto qualitativo quanto
à ocupação do espaço social e político, visibilidade e penetração na opinião
pública das camadas populares de origem negra. Uma das provas desta visibilidade
é que a temática “morro” como local de moradia destas populações, começa a
emergir publicamente tanto na imprensa (algumas vezes denunciando as más condições
de vida destes locais), como em canções, valorizando a inspiração e a capacidade
poética dos seus moradores, contribuindo na quebra de preconceitos.
Buscando o reconhecimento cultural e social
As escolas de samba
vão adquirir visibilidade em Florianópolis num período anterior ao golpe
de 64, em que vivia-se no Brasil um movimento cultural que buscava a “autenticidade
nacional” e que havia elegido, a partir da década de 20, o traço africano
como fundamental na construção da brasilidade. Este ambiente cultural nacional
vai auxiliar a impulsionar as escolas de samba, também em Florianópolis, apesar
das condições adversas que vimos anteriormente. À medida em que sobe a estrela
das escolas de samba nos finais da década de 50, as relações com forças sociais
e políticas da cidade também se estreitam: o apoio econômico do empresariado
e comércio local às escolas de samba - que é significativo nesta época - também
é utilizado pelos negros como forma de ampliação social. Pode-se afirmar que
as escolas de samba atuaram com mediadoras entre as classes populares de origem
negra e outros setores sociais, inclusive da elite da cidade.
Outra relação social
importante que principia a emergir nesta época é com o Poder Público. Numa
primeira fase, que se estenderá até meados da década de 70, estas relações
são basicamente relações aparentemente harmônicas, de cunho paternalista e
autoritário, uma vez que o Poder Público controla e dirige as atividades
das escolas de samba, ao mesmo tempo em que subsidia seus gastos. As escolas
de samba, por seu lado, alimentam estrategicamente esta relação, buscando
ampliar seu leque de alcance social e afirmar-se no cenário cultural da cidade.
Pode-se afirmar que as camadas populares de origem negra apostam basicamente
no exercício do consenso e da conciliação - nas “novas” relações que principiam
a consolidar-se com outros setores sociais e com o Poder Público - para
fazer avançar sua organização em escolas de samba.
Entretanto, este exercício
do consenso não se dará inicialmente entre as próprias escolas de samba. A
exemplo do que havia ocorrido em outros lugares do Brasil, a articulação interna
entre as próprias escolas é incipiente. Nas décadas de 40 até meados de 70,
em geral a rivalidade intra-escolas é permanente e além da disputa pela preferência
da opinião pública, disputa-se também as benesses do Poder Público. Por vezes,
estas táticas redundaram em atrelamento político das escolas de samba a grupos
conservadores locais; entretanto, não se pode afirmar que a história das escolas
de samba tenha sido de submissão política: episódios localizados historicamente
não podem configurar o exercício de uma prática. Em geral, as escolas de
samba lutaram pela construção de processos de hegemonia cultural das camadas
populares de origem negra.
As táticas de conciliação
e consenso começam a alterar-se com o regime autoritário que se implantou
no país com o golpe militar de 1964 que também irá refletir-se na atuação
do Estado no carnaval local através da censura a ranchos, blocos, escolas
de samba, concurso de canções, etc. Esta repressão abateu o ânimo carnavalesco
na década de 60 em Florianópolis, mas se por um lado o Estado cumpria a função
repressora, por outro as escolas de samba não deixaram de dar sua contribuição
à luta pela democracia, abordando temas sociais, buscando solidificar a temática
negra em todas as oportunidades culturais que teve acesso e lutando também
através do silêncio, deixando de prestar homenagens a políticos e autoridades,
como vinha fazendo todos os anos desde sua fundação. Esta participação social
das escolas de samba se desenvolve na década de 60 com uma metodologia bem
própria: elas buscam se institucionalizar, dialogam e recebem apoio do Poder
Público de feições autoritárias e populistas, mas não adota sua ideologia;
trabalha temáticas sociais com ironia e arte, mas não assume a função de “instrumento
de conscientização” bastante comum entre o pensamento progressista da época.
Vai buscando caminhos próprios de avanço e consolidação, adotando ora uma,
ora outra estratégia, ora conciliando, ora enfrentando, ora cantando a ordem
vigente em temas ufanistas, ora cantando heróis do passado que contribuem
para pensar o presente, buscando sempre neste momento, como característica
fundamental, aglutinar em torno de si a diversidade. Esta característica
tornará a escola de samba um dos mais importantes locus organizativo
das camadas populares de origem negra de Florianópolis, que, além destas estratégias
citadas utilizará também o luxo, a elegância, o ritmo e a música como instrumentos
de avanço e afirmação.
Escolas de samba: o turismo como atividade cultural
Nos finais da década de 60, embalados por uma
efêmera abertura política, as escolas de samba ensaiam novos passos na consolidação
de sua organização: o número de escolas cresce significativamente, os ensaios
são regulares e começam as primeiras preocupações com estruturação, superando
o imediatismo dos primeiros tempos. A participação econômica do Poder Público
nos desfiles como um dever social emerge claramente nesta época; as possibilidades
dos desfiles como investimento financeiro no setor turístico começam a esboçar-se
no início dos anos 70. Lentamente as escolas de samba também começam a penetrar
nos espaços das elites, como os clubes tradicionais da cidade, seja através
das baterias, seja através dos desfiles de fantasias. Mas será somente a partir
dos anos 80 que as classes médias e as elites se aproximarão das escolas de
samba em Florianópolis.
Nos tempos de maior
acirramento do regime militar - final dos anos 60 e início dos anos 70 - as
escolas de samba de Florianópolis não deixarão de dar sua contribuição social,
reforçando a temática da cultura afro-brasileira e dos temas históricos de
fundo democrático, como lutas e personagens históricos negros, etc. Nesta
época a opinião pública já é francamente favorável às escolas de samba. A
temática da cultura negra penetra desde as ruas, passando pelas escolas de
samba e chegando aos clubes das elites. Entretanto, a relação com o Poder
Público continua a ser - cada vez mais - de subvenção e controle. Embora
o momento fosse de intensa repressão, as escolas de samba continuam a consolidar-se.
Isto não quer dizer necessariamente que as escolas de samba fossem coniventes
com o autoritarismo; significa que utilizaram táticas que não implicaram
em enfrentamento direto com o poder: estabelecer alianças, ganhar a opinião
pública, penetrar os espaços possíveis como os meios de comunicação, impressionar
com seu potencial artístico, atuar como mediadora entre as classes populares
e as elites, institucionalizar-se, etc. foram alguns dos instrumentos de consolidação
das escolas de samba nesta época, ao mesmo tempo em que expressava-se também
sobre temas sociais como a Guerra do Vietnã, penetrando nos espaços possíveis
de expressão pública. Além do mais, o regime militar apostava também no nacionalismo
para firmar suas bases e a escola de samba há muito já havia emergido como
símbolo nacional da “brasilidade”, elemento que foi plenamente assumido por
esta também como instrumento de afirmação, o que lhe possibilitou a sobrevivência
nos tempos de ditadura militar.
Sobreviver e manter-se
“autêntica” como signo de “brasilidade” e de cultura nacional foram seus principais
desafios. Em meados da década de 70, as escolas de samba começam a sentir
o que será mais tarde uma de suas problemáticas principais: a ausência de
uma estrutura financeira adequada à importância social e artística que as
escolas passam a ter.
Nesta época a população
“do morro” emerge como temática social e poética na imprensa, nos festivais
de música, enfim, na opinião pública local. A quantidade de elogios às escolas
de samba são diretamente proporcionais às críticas negativas à atuação do
Poder Público no carnaval, o que significa que apesar do Estado financiar
os desfiles, sua atuação controladora e autoritária provocava descontentamentos
nos níveis interno e externo às escolas de samba. Os elogios abertos provam
que, embora a situação econômica e social dos negros em Florianópolis fosse
de imobilidade social, seu prestígio cultural já era indiscutível.
Aliada à problemática
da estruturação econômica, surge também a temática do empresariamento das
escolas ligada à questão da autonomia em relação ao Poder Público. O crescimento
das escolas de samba implicará também numa alteração artística que envolve
a parte estética e musical, o que não ocorrerá sem conflitos. Estes elementos
serão “divisores de águas” no Mundo do Samba até 1995, quando este trabalho
foi finalizado. O Mundo do Samba desenvolverá grandes polêmicas em torno
de polarizações como autonomia x dependência, “negritude” x “branqueamento”,
mercantilização x autenticidade, empresa x comunidade, etc. Entretanto, no
desenrolar da história das escolas de Samba em Florianópolis estes elementos
serão ora combinados, ora alternados, ora polarizados conforme o momento histórico
e as forças sociais em jogo. Ou seja, um processo dinâmico e contínuo incessantemente
transformador explica as várias modificações ocorridas nas escolas de samba.
Isto justifica porque tantas vezes se anuncia que “o carnaval está morrendo”
e este sempre se reelabora em novas formas, se diversificando em inúmeras
possibilidades conforme o contexto em que se insere.
Em meados da década
de 70, começam a surgir novas forças econômicas na cidade - principalmente
a ELETROSUL e o empresariado industrial e comercial do Continente - que impulsionarão
o desenvolvimento econômico desta parte da cidade. Estas novas forças trarão
como conseqüência o crescimento das classes populares no continente, atraídas
pelas possibilidades de ocupação remunerada e expulsas da área rural pelo
processo de entrada do capitalismo no campo. As forças econômicas instaladas
na parte continental da cidade possibilitarão a emergência na década seguinte
do fenômeno das “novas” escolas de samba: Escola de Samba Consulado e Unidos
da Coloninha, as quais alterarão o antigo quadro, composto das “tradicionais”
(principalmente Protegidos da Princesa e Copa Lord) as quais, até então,
revezavam-se nas vitórias e dividiam a opinião pública e as glórias.
A postura do Poder
Público em meados da década de 70 é de compromisso e investimento ou seja,
o Poder Público via nas escolas de samba um possibilidade concreta de investimento
econômico de largo prazo. Por este motivo, que aumentava ainda mais o prestígio
público das escolas de samba e pelo espaço social já conquistado por estas
em sua história, elas possuirão um espaço de expressão democrática incomum
para o momento repressivo em que se vivia: nos desfiles das escolas em Florianópolis,
a referência a lideranças de movimentos coletivos, figuras heróicas da história
e mesmo algumas “rebeldias”, como desfilar sem permissão oficial acabam sendo
aceitas, respaldadas pelo seu prestígio. Isto não significa que sua atuação
fosse deliberadamente “de protesto” contra a ordem vigente; significa apenas
que a amplitude do espaço social conquistado lhe permitia grande poder de
expressão pública.
A expansão das escolas
de samba convive, no Estado de Santa Catarina, com outro fenômeno característico:
a resistência dos “núcleos coloniais” (geralmente de origem germânica, um
dos grupos étnicos locais fortes) à “onda avassaladora” das escolas de samba.
O resultado deste processo é uma luta constante por hegemonia cultural nestes
locais disputada por negros, por um lado e por outro, brancos de origem européia,
que alternam constantemente avanços e recuos: ora expande-se a etnia germânica
(em festas como a Oktoberfest, por exemplo), ora consolida-se a cultura afro-brasileira,
penetrando inclusive em clubes considerados “aristocráticos”, obrigados a
abrir suas portas ao carnaval para sobreviver socialmente.
Além das novas forças
econômicas que alterarão as relações internas e externas das escolas de samba,
em nível interno, a lenta aproximação de outros setores sociais, como as classes
médias por exemplo, começa a provocar dissensões no Mundo do Samba. É nesta
época também que reforça-se uma divisão que vinha se esboçando há tempos,
resultado da diversidade social refletida nas escolas de samba: as “grandes”
e as “pequenas”. Neste momento, esta divisão se expressa em “escolas da ilha”
(grandes) e “escolas do Continente” (pequenas), caracterização que permanecerá
apenas durante a década de 70. Nesta época, a disputa de prestígio dava-se
quase que exclusivamente no âmbito social e o aspecto econômico não tinha
grande relevância, já que a exigência financeira dos desfiles não era de grande
vulto. Entretanto, na década de 80, com o desenvolvimento das novas forças
econômicas que haviam se instalado na década de 70 e com o surgimento dos
“blocos de empresa” (CELESC, ELETROSUL, etc.) o poder econômico e político
se deslocará da ilha para o continente e a polarização anterior se romperá
para dar lugar a uma complexidade maior, na qual a definição de “grande”
ou “pequena” será uma combinação de poder econômico, organização comunitária
e capacidade de fazer alianças, que resultará em agrupamentos diferenciados.
Além do mais, o fator econômico (além do social) passa a ser um dos determinantes
na disputa do prestígio da escola, já que a estrutura do desfile exigia maiores
investimentos.
Em meados da década
de 80, ao mesmo tempo em que se afirmam as “novas escolas” como favoritas
na grande maioria dos desfiles, as “tradicionais” emergem em uma crise. Esta
crise será resultado da alteração dos fatores econômicos e sociais e da inadequação
de sua forma antiga de estruturação à novas exigências; debilidade financeira
e afastamento da comunidade são fatores que também precipitarão a crise. Mas
em seguida, as “tradicionais” escolas se restruturarão buscando adequar-se
às novas exigências e retomarão a posição para competir em pé de igualdade
com as “novas”. Suas estratégias se desenvolverão principalmente no sentido
de organizar-se internamente nos níveis administrativo e político e reaproximar
a comunidade de origem.
Parte da reordenação
das forças que resultará em novas composições nas escolas de samba, implicará
na aproximação das classes médias e no surgimento de figuras - algumas polêmicas
- como o “carnavalesco” que concentrará as funções que antes eram exercidas
pelos organizadores dos desfiles; também se consolidam funções como o autor
de enredo e outras. Internamente nas escolas de samba, consolida-se uma relação
de “trocas” entre os diversos setores sociais onde as classes médias contribuem
com algumas propostas estético-visuais e com a presença financeira adquirindo
fantasias que requerem maior poder econômico, e as classes populares de origem
negra com o aspecto rítmico-melódico, numa composição que se denominará o
“carnaval-espetáculo” e que predominará daí por diante.
Desafios para o turismo educativo
As escolas de samba no Brasil
afirmaram-se sobre dois pilares: por um lado, signo de brasilidade, luta pela
identidade cultural, “autenticidade”, etc. e por, outro, como símbolo atividade
turística para o mundo. Entretanto, “para muito além dos desfiles carnavalescos
durante os quatro dias de carnaval, desenvolve-se um intenso processo comunitário,
de caráter cultural e educativo, que poderia ser conhecido, divulgado e compartilhado
dentro da perspectiva de “turismo cultural e educativo”. Desta forma, além
da consolidação das escolas de samba como “locus” de cultura viva e dinâmica,
poderiam ser gerados recursos para a cidade, para o setor do turismo em si
e, também para as próprias escolas de samba, que poderiam então, sonhar com
a almejada emancipação econômica, sem manter dependências indesejáveis de
outros setores. Vejamos os aspectos educacionais que poderiam ser vivenciados
pela atividade turística
Reflexões sobre as possibilidades de intercâmbio cultural através das escolas
de samba
A trajetória histórica
das escolas de samba de Florianópolis implicou em um aprendizado fundamental
para os chamados componentes do Mundo do Samba. O Mundo do Samba organiza
o ideário, a memória e a coesão interna de seus participantes. O caráter pedagógico
das escolas de samba - motor principal do Mundo do Samba - se desdobra em
múltiplos processos que se interrelacionam e se combinam representando uma
oportunidade formidável de formação das classes populares as quais, muitas
vezes não tem acesso à outros espaços educativos, como a escola formal ou
não participam de outras instâncias associativas. Os processos educativos
promovidos pelas escolas de samba levam em conta a ominidimensionalidade
e a ominilateralidade do ser humano, ou seja, abrangem variados aspectos
essenciais da realidade humana e natural. As escolas de samba indicam que
existe, na sociedade, uma energia de dimensões político-pedagógicas que possibilita
às classes populares educarem-se entre si nas relações, tornarem-se conscientes,
viverem conflitos e contradições e construirem cultura. O objetivo que congrega
este universo é o desfile, o rito carnavalesco principal. Este rito exprime
as relações sociais que o engendram e geram as estruturas necessárias à sua
realização, como as instâncias organizativas das escolas de samba.
Uma das formas de
aprendizado das escolas de samba de Florianópolis é a Pedagogia da Ação Social.
Este aspecto desenvolve-se sobre dois eixos: viver em comunidade e relacionar-se
com o “exterior” à comunidade. O aprendizado gesta-se na convivência com o
igual e com o diferente, nos pequenos grupos e no coletivo. A estrutura administrativa
e diretiva das escolas de samba visa organizar e refletir esta vivência social
bem como responder aos seus anseios e promover seus valores. O aspecto comunitário
da escola mantém a coesão interna e o espírito de solidariedade. O direito
ao lazer passa a ser uma reivindicação comunitária. A Pedagogia da Ação Social
das escolas de samba de Florianópolis ajuda a promover também a auto-valorização
da comunidade que a organiza, contribuindo para a construção da cidadania
e para a auto-estima das populações que aí vivem. Reorganizando o universo
valorativo dessas populações, os processos pedagógicos promovem a substituição
do “malandro” pelo cidadão, ao mesmo tempo em que cumprem uma função “recuperadora”
e preventiva da marginalidade social e suas conseqüências. Dentro desta função
preventiva, a escola de samba propõe-se também a ser um campo de trabalho
alternativo às classes populares de origem negra, cujo âmbito possível de
atuação profissional ainda é imensamente restrito. A Pedagogia da Ação Social
também se reflete nos pontos de conflito: promover a convivência e a aceitação
mútua entre os diferentes, aproximar modernidade e tradição, “velhos” e “novos”,
combinar características possíveis de serem articuladas, trabalhar os constantes
embates e conflitos, recriando-se permanentemente também faz parte da função
educativa. Assim, as escola de samba de Florianópolis cumprem uma função
pedagógica de regulação das relações sociais.
Além da função reguladora,
as escolas de samba de Florianópolis cumprem também um papel mediador das
relações sociais com setores que não integram a comunidade, buscando garantir
o equilíbrio interno e externo entre comunidade e “forças externas”, negros
e brancos, pobres e ricos, autenticidade e mercantilização e fortalecer alianças
que contribuam para seu desenvolvimento. A luta por hegemonia determina as
relações de força e poder nos diferentes momentos históricos. A construção
do poder político nas escolas de samba é resultado de um intrincado sistema
de relações que congrega instâncias internas e externas às escolas de samba.
Por isso é necessário não confundir a aparência que emerge nos desfiles com
a essência da organização real das escolas de samba.
A construção de um
processo coletivo enfrentando conflitos e antagonismos é o eixo da atuação
da Pedagogia Social das escolas de samba de Florianópolis, que busca pautar
suas ações por processos orientados na direção da democracia, exercitando
a descentralização do poder e valorizando as escolas de samba como locus de
brasilidade, de aglutinação da nacionalidade brasileira em sua diversidade
de raças, classes sociais, culturas, religiões, etc. Promovendo esta convivência,
busca atenuar o preconceito racial e social, proclamando o mito da sociedade
igualitária e lamentando o curto espaço em que se realiza. Possibilitando
a convivência de diferentes extratos sociais auxilia a ampliar o leque de
alianças das classes populares de origem negra que detém a hegemonia do processo
cultural e educativo.
Combinada à ação da
Pedagogia Social, há a Pedagogia da Ação Política das escolas de samba de
Florianópolis que atua principalmente no sentido de trabalhar o consenso nos
níveis interno e externo e fazer conviver as diferenças político-partidárias,
atrelando ou mantendo a autonomia da escola. Um dos alvos da Pedagogia da
Ação Política é a descentralização das estruturas de poder e a adequação desta
às novas exigências emergentes das transformações. Trata-se de promover instâncias
decisórias e organizativas que aumentem a democracia interna e trabalhar com
as oposições, de modo a manter o desenvolvimento e o equilíbrio interior ao
Mundo do Samba. Esta convivência com a pluralidade e a diversidade promove,
pedagogicamente o diálogo e a participação na construção do consenso.
Faz parte da Pedagogia
da Ação Política das escolas de samba de Florianópolis a articulação das
escolas de samba em torno de uma única entidade associativa que represente
a totalidade das escolas e dialogue com o Poder Público. O processo educativo
reside justamente no aprendizado da organização representativa, da autonomia,
na superação da dependência e na prática das alianças políticas com outros
setores. Na relação com o Poder Público o aprendizado constitui o exercício
da cidadania, da prática dos direitos e deveres e da luta pela garantia de
espaços já conquistados, como a participação do Estado na responsabilidade
sobre os desfiles (ainda que somente como facilitador de gestões). Resultado
desse exercício pedagógico é a elevação da capacidade e agilidade política
de seus dirigentes para utilizar na prática conceitos como “formação de opinião
pública”, “credibilidade”, “composição de forças”, etc. e também, a capacidade
de elaborar propostas a partir de problemas concretos, como por exemplo a
questão financeira, os conflitos inter-classes, os conflitos de ponto-de-vista
em relação às questões artísticas, em relação à participação da comunidade,
etc.
Outro resultado da
Pedagogia da Ação Política é o aprendizado da iniciativa junto a outros setores
sociais ou seja, a maturidade que os dirigentes e organizadores atingem quando
admitem suas próprias limitações na tomada de atitudes de captação de recursos,
um primeiro passo para a superação da dependência.
Um aprendizado democrático
é o das instâncias de participação político-partidária e os limites desta,
sendo questionadas abertamente as práticas anteriores de atrelamento das escolas
a facções políticas. O envolvimento de dirigentes de escolas de samba com
políticos tradicionais numa relação mesclada de paternalismo e clientelismo
- uma prática relativamente comum no passado - será abertamente questionado
nos anos 90. Não se deixar manipular, diferenciar posição política pessoal
de prática política coletiva, perceber os limites e possibilidades da representação
e da liderança, são outros aprendizados em curso na Pedagogia da Ação Política
desenvolvida pelas escolas de samba de Florianópolis. Um exercício pedagógico
relevante é a construção da credibilidade pública que desenvolverá nos componentes
do Mundo do Samba habilidades e capacidades diversas tais como: maturidade
política, senso de responsabilidade, noção de representatividade, visão micro
e macro da estrutura social, noção de âmbitos decisórios e de representação,
etc.
Para solidificar e
garantir estes processos, o Mundo do Samba elabora um código de ética e moral
que cumpre função educativa entre seus componentes. A Pedagogia dos Valores
Éticos e Morais justifica-se em torno da “salvação do carnaval”. “Salvar o
carnaval” é o grande elemento de unidade das escolas de samba, o ideal máximo.
Quando a unidade interna ao Mundo do Samba se vê ameaçada por conflitos e
dissensões, invoca-se a necessidade de “salvar o carnaval” para retomar a
harmonia. A participação no carnaval e nas escolas de samba - cuja expressão
máxima são os desfiles - é considerado uma necessidade tão premente quanto
educação, saúde ou alimentação para os participantes do Mundo do Samba. Deste
ponto de vista, os integrantes do Mundo do Samba rejeitam a visão que propugna
a superioridade das instâncias da economia e da política sobre as instâncias
da cultura e da religião e recusam a assumir o ponto de vista elitista, segundo
o qual as classes populares deveriam preocupar-se exclusivamente com sua reprodução
enquanto corpo físico e força de trabalho. A prática dos integrantes das
escolas de samba recupera o direito ao lazer e ao aspecto lúdico-espiritual
como uma necessidade fundamental às quais as classes populares também tem
direito. Ao mesmo tempo, através da arte, promovem o mundo da expressão simbólica
como uma maneira legítima de discursar sobre a realidade.
Sobre esses valores
se funda o mito da democracia racial e social , que considera o carnaval das
escolas de samba como a entidade máxima que congrega e fortalece o desenvolvimento
de uma rede viva de relações, congregada no Mundo do Samba, aliando a força
ritual do desfile à força mítica do carnaval. Pelo carnaval justifica-se o
trabalho gratuito e todo tipo de sacrifício possível. Em torno da capacidade
de sacrificar-se e de “salvar o carnaval” nascem os heróis deste mundo particular;
todos aqueles que, em geral gratuitamente, lutam para que o desfile aconteça
e a escola de samba sobreviva, geralmente os dirigentes, os organizadores
e o “pessoal do bastidor, ou galpão”. Não são consagrados heróis pelo poder
político e econômico que possuem; são heróis míticos porque conseguem, através
do esforço e do despojamento pessoal, “salvar o carnaval”, o maior bem da
comunidade.
Em torno desta premissa
máxima constrói-se o valor da solidariedade, que emerge principalmente na
última década no enfrentamento com o Poder Público, pelos motivos já apontados
anteriormente. É no bojo destes elementos valorativos que a “armação” (ou
tramóia) é substituída pelo “trabalho sério”, significando um salto de qualidade
nos valores éticos das escolas de samba - passar das articulações nem sempre
lícitas, às vezes feitas no passado, para o desenvolvimento de um trabalho
constante, lícito, transparente, visível e público. A solidariedade é mantida
a duras penas e percorre um caminho que possui momentos diferenciados que
se interpenetram e influem no seguinte: durante o ano a solidariedade predomina;
nos 2 ou 3 meses que antecedem o desfile ela sobrevive cercada de tensões;
na avenida, a competição é aberta e não há lugar para solidariedade; a solidariedade
rompe-se totalmente logo após o desfile com o descontentamento das perdedoras
e as acusações mútuas. Rapidamente, quase concomitantemente, o descontentamento
é expelido para fora do Mundo do Samba ( jurados ou Poder Público) a fim de
manter a coesão interna e “salvar o carnaval”, e a fraternidade é retomada
tempos após os desfiles para predominar novamente no Mundo do Samba. Esta
separação de espaços e tempos em função de um objetivo coletivo é um dos
resultados da Pedagogia dos Valores Éticos e Morais das escolas de Samba de
Florianópolis. O terreno fértil da solidariedade entre as escolas de samba
é o campo da arte, do espaço possível para o espírito, para o lazer, para
a convivência, para o estabelecimento de relações amistosas. Neste sentido,
pode-se afirmar que o “espírito carnavalesco” opõe-se ao espírito do capitalismo
clássico que proclama as virtudes do trabalho incansável, da produtividade
e da acumulação de riquezas como o valor máximo dos seres humanos. O espírito
carnavalesco questiona a visão paternalista e autoritária que define as prioridades
as classes trabalhadoras reduzindo-as a “corpo de trabalho” e proclama a ominidimensionalidade
humana e a possibilidade de uma sociedade igualitária.
Outro signo de grande
valor simbólico é “vestir a camisa”. No período inicial das escolas de samba
“vestir a camisa” significava adotar uma única escola. Um dos resultados
da Pedagogia dos Valores Éticos e Morais das escolas de samba de Florianópolis
é expandir este significado ao Mundo do Samba, ou seja, “vestir a camisa”
passa a ser não a fidelidade a uma única escola mas a um projeto coletivo
do qual o centro é o carnaval e o Mundo do Samba.
O aprendizado ético
e moral resulta também em um “código de honra” que regula as relações, estabelece
limites e elabora normas coletivas. Em troca do rígido comportamento moral
do indivíduo a escola de samba oferece convívio social, respeitabilidade
e todo um mundo alternativo onde se reinventa valores e inverte-se a lógica
da sociedade atual. No Mundo do Samba não se condena os indivíduos à marginalidade
por razões sociais ou econômicas, mas por transgressões de normas que o indivíduo
conhece e que normalmente pode controlar, incentivando assim a autoconfiança
e auto-estima. A Pedagogia dos Valores Éticos e Morais possibilita a educação
comportamental de acordo com seus valores e, para isso, oferece um ambiente
receptivo que propicia condutas construtivas no Mundo do Samba, dando chances
e oportunidades para aqueles que estão excluídos e são rejeitados por uma
lógica que tem como premissa máxima o poder econômico. Além do aspecto do
comportamento social em sentido mais amplo, também o comportamento sexual
é rigidamente controlado, invertendo a aparência que os meios de comunicação
de massa exploram no carnaval: na essência deste código ético e moral, não
há lugar para exploração sexual no ambiente das escolas de samba.
A Pedagogia da Ação
Escolar das escolas de samba de Florianópolis considera que elementos da escolaridade
formal são desenvolvidos pelas escolas de samba que tem potencialidade para
penetrar em alguns vácuos da escola pública. A construção do enredo muitas
vezes foi utilizado como aulas de história para crianças e para os integrantes
mais próximos às escolas de samba; possibilita acesso a temas que a história
oficial não registra, como personagens importantes das lutas sociais brasileiras.
Os enredos funcionam como temas-geradores de conhecimento para as comunidades
as quais, a partir do contato com o tema, apreendem e constróem diversos espaços
de aprendizado, numa relação horizontal de troca de saberes. O enredo propicia
também o desenvolvimento de noções de dramaturgia, o registro da memória
oral e a pesquisa da história local, contribuindo para o reconhecimento da
comunidade nos níveis interno e externo. Além do enredo, a letra do samba
contribui para o alargamento do universo cultural dos componentes e para a
capacitação na elaboração poética. Como escola profissionalizante, as escolas
de samba desenvolvem noções de artes plásticas, pintura, escultura, costura,
serralheria, marcenaria, música, etc. As escolas de samba de Florianópolis
atuam com uma visão interdisciplinar de educação abarcando diversos campos
de saberes que poderiam ser aproveitados pelas escolas públicas. Além do mais
contribui para a manutenção da criança na escola e incentiva a aprendizagem,
na medida em que organiza atividades que colocam como única pré-condição para
participação, o bom desempenho escolar.
Uma das facetas da
ação educativa das escolas de samba de Florianópolis é a Pedagogia da Ação
Cultural, fundada no princípio da valorização da “negritude”. Ou seja, apesar
de buscar contemplar a pluralidade racial e social brasileira, o valor mais
importante para legitimar uma escola de samba como veículo cultural é “ter
negritude”. Trata-se de uma inversão do preconceito racial e social vigente
na sociedade. Além da afirmação das raízes culturais, a valorização da “negritude”
significa também, no caso das escolas de samba de Florianópolis um signo de
resistência contra o desprezo que sofre a cultura afro-brasileira em relação
à cultura germânica e outras de origem européia predominantes no estado de
Santa Catarina.
Em torno da “negritude”
também organizam-se diversas atividades comunitárias de caráter cultural como
dança, música, etc. Se ter negritude atesta a legitimidade, “branquear” é
sinônimo de perda de prestígio e de qualidade artística. O elemento mais importante
da “negritude” é o samba, símbolo máximo integrador e catalisador do Mundo
do Samba, uma vivência concreta e cotidiana que supera a visão folclórica
e conservacionista que por vezes lhe é atribuída. O samba promove a familiaridade,
a convivência íntima no momento do lazer, regula toda uma rede de relações
de apoio aos integrantes, contribui para a integração social e promove a criação
artística coletiva. Em Florianópolis a ênfase dada ao espetáculo visual em
detrimento do musical provoca conflitos, rapidamente superados pela combinação
entre estes elementos, novamente reagrupando modernidade e tradição. Apesar
de aceitar a modernidade, as escolas de samba não abrem mão das tradições
culturais, que significam exatamente as raízes afro-brasileiras, uma preocupação
particularmente presente em meados da década de 90, num processo de “retomada
da autenticidade”.
A Pedagogia da Arte contribui para a diversificação
do universo estético das classes populares. As discussões estéticas representam
momentos preciosos de aprendizado de elementos artísticos. A questão da participação
das classes médias principalmente na estética dos desfiles traz à tona uma
polêmica que resulta em fecundas discussões sobre o significado social da
arte popular e seus modos de afirmação. Atualmente existe, como resultado
deste processo, exigências artístico-visuais, além das musicais, também por
parte das classes populares que frequentam o Mundo do Samba ou que simplesmente
acompanham os desfiles, que não podem ser creditadas ao “sucesso” da influência
das classes médias, mas que é resultado de um aprendizado das próprias classes
populares no trabalho de elaboração dos desfiles e competição na avenida.
Para os componentes do Mundo do Samba, beleza artística é fundamental porque
promove a identidade com o espetáculo e o direito aos conhecimentos acumulados
pela humanidade neste campo. Além do mais, a Pedagogia da Arte possibilita
uma forma de conhecimento sensitivo que outros domínios de saberes não atingem.
Considerações finais
A atividade turística
com caráter educacional e cultural apresenta grandes possibilidades neste
final de milênio, quando se busca aliar lazer ao re-conhecimento da diversidade
cultural como um exercício de cidadania.
As escolas de samba,
longe de serem apenas um belo espetáculo plástico-musical, representam a verdadeira
trajetória de luta de resistência do povo brasileiro contra a exclusão e os
estereótipos de toda ordem
Os aspectos educativos e culturais
destas agremiações devem ser compreendidos como o resultado de uma vitória
das classes populares de origem negra as quais, através de muita luta e capacidade
organizativa, logram hegemonizar culturalmente o carnaval, dando-lhe sentido
artístico, força cultural e social e potencializando sua organização como
veículo fundamental de educação e formação.
Além disso, pela beleza estética,
força cultural são um valioso e atraente exercício de cultura, com o qual
o turismo educativo pode realizar grandes parcerias, respeitando, auxiliando
na promoção destas raízes culturais e na emancipação econômica e social destas
comunidades que, há décadas, realizam o “espetáculo popular mais belo da terra”,
mas que, na maioria das vezes, permanecem excluídas do acesso às riquezas
geradas por este.
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