PLANEJAMENTO URBANO E TURISMO CULTURAL EM BELO HORIZONTE, BRASIL: ESPETACULARIZAÇÃO
DA CULTURA E A PRODUÇÃO SOCIAL DAS IMAGENS URBANAS
PEREIRA, Valnei
Geógrafo (UFMG), Mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de
Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), Docente do Departamento de Geografia e da Escola Superior
de Turismo da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas),
em Belo Horizonte, Brasil.
Endereço: Rua Alagoas, 896/ Apto. 901 – Bairro Funcionários, CEP 30.130-160,
Belo Horizonte/ MG, Brasil – Fones: 55 XX (31) 3283-8164/ 55 XX (31) 9976-0951/
55 XX (31) 3269-3215/ Fax 55 XX (31) 3261-6144.
E-mail: valnei.pereira@bol.com.br
RESUMO
Este paper apresenta uma reflexão crítica sobre as tendências anunciadas
pelo planejamento urbano na metrópole de Belo Horizonte, Brasil, neste início
do século XXI, a partir das suas mediações com o turismo cultural, buscando
compreender como a construção de imagens urbanas emblemáticas se associam, em
grande medida, à racionalização da cultura e sua espetacularização.
Belo Horizonte, terceira metrópole brasileira, é a capital do Estado de Minas
Gerais, que possui o maior acervo histórico-cultural tombado e registrado pelos
órgãos de proteção ao patrimônio no Brasil, tanto bens de importância nacional,
quanto internacional. A cidade também se destaca pela sua paisagem moderna que
é movimentada por ampla e rica produção cultural, sobretudo nas áreas de música,
dança, teatro e moda.
Apesar destes atributos, Belo Horizonte ainda não se consolidou como pólo de
turismo cultural, fato que tem ocupado grande esforço da administração pública
em aproximação com segmentos privados, configurando parcerias estratégicas sem
o envolvimento e democratização das decisões.
Nossa análise tenta contribuir para a reflexão desses desencontros, na medida
em que conjuga a crítica às tendências do planejamento urbano aos complexos
contextos da dinâmica cultural urbana onde as cidades, e sua cultura, são promovidas,
ou “vendidas”, como “produtos” nos novos circuitos turísticos da competição
capitalista contemporânea.
PALAVRAS-CHAVES: Planejamento Urbano, Turismo Cultural, City Marketing,
Espetáculos Culturais, Belo Horizonte.
URBAN PLANNING AND CULTURAL TOURISM IN BELO HORIZONTE, BRAZIL:
THE SPECTACULARIZATION OF CULTURE AND THE SOCIAL PRODUCTION OF URBAN IMAGES
PEREIRA, Valnei
Geographer (UFMG), MSc in Urban and Regional Planning at Institute of Research
and Urban/Regional Planning (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional
- IPPUR) of the Federal University of Rio de Janeiro (Universidade Federal do
Rio de Janeiro - UFRJ), Professor of the Department of Geography and of the
Superior School of Tourism at Pontifícia Universidade Católica of Minas Gerais
(PUC-Minas), in Belo Horizonte, Brazil.
Address: Rua Alagoas, 896/Apt. 901 – Bairro Funcionários, CEP 30,130-160,
Belo Horizonte/ MG, Brazil - Phone: 55 XX (31) 9976-0951/ Fax 55 XX (31) 3261-6144.
Email: valnei.pereira@bol.com.br
ABSTRACT
This paper presents a critical reflection on the trends announced by urban
planning in the metropolis of Belo Horizonte, Brazil, in this beginning of the
21st century, arising from connections with cultural tourism, seeking
to comprehend how the construction of emblematic urban images are associated,
in a large extent, to the rationalization of culture and its spectacularization.
Belo Horizonte, third Brazilian metropolis, is the capital of the state of
Minas Gerais, that possesses the largest historical/cultural heritage, protected
and registered by Brazilian agencies of protection to historical/cultural patrimony,
with pieces that are not only of nationwide importance, but also internationally
recognized. The city is also highlighted by its modern landscape, which is put
into motion by a wide and rich cultural production, especially in the fields
of music, dance, theater and fashion.
Despite these attributes, Belo Horizonte still has not been consolidated as
a polar region of cultural tourism, a fact that has become a focus of large
efforts of the public administration in approach with private segments, configuring
strategic partnerships without the involvement and democratization of decisions.
Our analysis tries to contribute to the reflection of these failures in meeting,
in the sense that it conjugates the critique to trends of urban planning to
the complex contexts of the urban cultural dynamics where the cities, and its
culture, are promoted, or “sold”, as “products” in the new tourist circuits
of contemporary capitalist competition.
KEYWORDS: Urban Planning, Cultural Tourism, City Marketing, cultural
Spectacles, Belo Horizonte.
1. MUTAÇÕES SUPERCONTEMPORÂNEAS: CLIVAGENS ENTRE ESPAÇO, TEMPO E CULTURA
Nos novos contextos espaciais da competição capitalista,
as cidades, e sua cultura, são facilmente acionadas como complexos produtos,
promovidos ou vendidos como mercadorias turísticas, para as quais são produzidos
novos fetiches a partir da midiatização da experiência urbana que conduz, assim,
à tendência a uma falsa possibilidade do existir coletivo, confundindo profundos
desenraizamentos com possibilidades culturais reais.
O cotidiano, recriado por diretrizes racionais que não reconhecem
os contornos imateriais dos diversos territórios que configuram o lugar e a
cultura, deixam de ser os sustentáculos efetivos do turismo cultural. Assim
novos significantes turísticos se colocam como possibilidade que não encontram
expressão imediata na (i)materialidade em constante transformação, reacendendo
desejos e recriando necessidades.
Estas referências apóiam a reflexão de processos de racionalização
em curso no campo do planejamento urbano. A imagem da cidade ganha destaque
por apresentar a atraente perspectiva da manipulação de desejos e valores na
ação planejadora atualmente valorizada, a partir de linguagens e técnicas atualizadas
de comunicação. Contexto onde o marketing e a publicidade passam a encadear,
na política urbana, uma série de processos novos. A competição urbana, ao se
inserir na escala internacional, instaura uma nova hierarquia de lugares, independente
dos vários interesses em jogo. Ou seja, "as disputas internacionais atuais
ocorrem de forma cada vez mais incisiva na face estratégica da captação de novas
funções pelos espaços metropolitanos, verdadeiros epicentros de contradições
sociais, e da imposição de homogeneidades técnicas que reduzem a qualidade,
hoje igualmente estratégica, da cultura e do tecido histórico-social de cada
lugar" (RIBEIRO, 1995:56).
Contraditoriamente, fala-se de pós-modernidade como a superação/
esgotamento possível de um momento histórico – o da própria modernidade - que
sequer experenciamos em sua plenitude de sentidos e valores. Todavia, no campo
da intervenção urbana global, mais conceitual que transformadora, as práticas
de racionalização traduzem a insistência em fórmulas conservadoras e, porque
não dizer, antidemocráticas de intervenção na realidade social, o que, invariavelmente,
conduz a uma situação de exclusão, que obriga à busca de posturas alternativas
de resistência: "o fato de que a produção limitada de racionalidade é associada
a uma produção ampla de escassez conduz os atores que estão fora do círculo
da racionalidade hegemônica à descoberta de sua exclusão e à busca de formas
alternativas de racionalidade, indispensáveis à sua sobrevivência" (SANTOS,
1999:247).
Entendidas nesta perspectiva, a manutenção e a reprodução
da injustiça e das desigualdades sociais apóiam-se na criação aparente de novas
oportunidades sócio-econômicas ou de “paraísos urbanos” atraentes, onde a administração
pública deveria planejar e arcar, antes de tudo, com os riscos dessa enganosa
imagem. Afinal de contas, as pessoas, assim como as empresas, podem fazer escolhas
locacionais mais vantajosas ou, para utilizar a expressão corrente, estratégicas.
Entretanto, os administradores públicos deveriam reconhecer que as vantagens
competitivas não podem ser usufruídas e apropriadas sem que suas conseqüências
sócio-culturais sejam pesadas. Essa é uma estratégia autodestrutiva, como muito
bem adverte ARANTES (2000: 29), ao afirmar que mesmo concebendo esses efeitos
"a corrida rumo ao desastre continua".
As cidades, cada vez mais refletidas
com base em orientações internacionais para o planejamento urbano, têm sido
promovidas para o empresário, o turista ou o cidadão (ASHWORTH and VOOGD,1991;
COOKE, 1990 apud SÁNCHEZ), sendo buscada larga adesão social para os projetos
de promoção urbana.
Nosso movimento reflexivo, assim,
propõe um elo analítico entre imagem e a difusão de uma nova racionalidade em
usos, atributos e qualidades do urbano. Neste sentido, a metrópole é entendida
como a condensação/ articulação específica entre escalas espaciais, contendo
espacialidades reinterpretadas por novos interesses, objetivos e necessidades
que refletem tendências internacionais de racionalização de atividades e processos
econômicos, com forte poder de manipulação do tecido sócio-cultural na construção
de imagens emblemáticas que sintetizam ricas experiências e possibilidades para
um efetivo turismo cultural. Elementos selecionados do cenário metropolitano
articulam possibilidades variadas de alcance da adesão social a novos projetos
econômicos, manifestos em diferentes contextos espaciais.
2. BELO HORIZONTE: SÍNTESES HISTÓRICAS REINTERPRADAS PELO PLANEJAMENTO URBANO
Do alto da Serra do Curral, formação
montanhosa que marca o sítio urbano de Belo Horizonte, capital do estado de
Minas Gerais, avista-se uma silhueta formada por um grande número de edifícios
onde, há pouco mais de 100 anos, em 1893, existia o pequeno povoado de Curral
D’el Rei com aproximadamente 4000 habitantes, 180 edificações e 32 fazendas.
Este pequeno arraial, em quatro anos, cedeu lugar à primeira grande cidade planejada
do país, inaugurada em 12 de dezembro de 1897.
Idealizada em concepções de planejamento
visionárias, com forte sedução pelo novo reificado, o movimento urbanístico
começa pelo "Grupo de Minas" que, mais tarde, viria a constituir-se
na Commissão Constructora[1] da Nova Capital: políticos,
expoentes da elite e intelectuais que, sob influência de Haussmann (Paris-FRA)
e L'Enfant (Washington-EUA), criaram, na virada do século, uma ficção sintetizadora
do moderno na convergência das Minas com os Sertões e os Planaltos brasileiros.
Trata-se de um idílio pretensamente modernizado e projetado entre os parâmetros
da última modernidade da época com o estilo de vida luso-provinciano preservado
nas mofadas e barrocas referências das cidades históricas do ciclo das Minas
e das fazendas.
Ao longo do século XX, uma série
de inovações urbanísticas e culturais reafirmam a centralidade emblemática da
cidade construída em torno de referências dos ideários do modernismo/ modernização.
Além das intervenções a atualizações em usos do espaço urbano, mutações dinâmicas
se processam em sua paisagem cultural, sintetizada em uma rica produção cultural
e inovação em comportamentos e modismos que marcam a experiência urbana de Belo
Horizonte e referenciam a produção de imagens urbanas, responsáveis por representações
acerca dos circuitos turísticos.
Atualmente, essa trajetória tem
sido empregada em nome de uma possível “vocação” contemporânea de Belo Horizonte
relacionada ao turismo cultural e à recepção de eventos de porte internacional,
entendendo a cultura, a indústria do comportamento (moda e música), os serviços
especializados e a alta tecnologia como manifestações mais que “naturais” de
uma metrópole onde o terciário avançado e o quaternário adquirem importância
crescente em função da própria vida sócio-cultural[2].
No plano internacional, grandes
eventos de caráter cultural como os Festivais Internacionais de Teatro, Dança,
Quadrinhos, Artes Cênicas, Cinema Latino-Americano, Letras e Poesia dos Países
de Língua Portuguesa, Curta-metragens, Hip Hop, Rock Pop e os intercâmbios culturais
com cidades européias e norte-americanas emblematizam a cultura na captura de
possibilidades turísticas forjadas à experiência sintetizada em imagem. A paisagem
urbana simplificada pela síntese da imagem transmuta-se em linguagem corrente,
facilmente captável pelo senso comum, que é apropriado em nome de intenções
estratégicas moldadas por novas tendências do planejamento urbano.
Essas complexidades, em constante
(re)definição constituíram o roteiro para a evolução espacial que hoje é a terceira
maior aglomeração urbana do país (cerca de 4,5 milhões de habitantes), centro
geopolítico e administrativo da segunda maior concentração populacional e econômica
nacional, e eixo nodal da maior rede urbana estadual brasileira. Em contradição
com esta posição, Belo Horizonte é definida por estrangeiros que a visitam como
“a maior cidade de que nunca ouviram falar do mundo”. Belo Horizonte, para parafrasear
a Los Angeles de Mike Davis, "é tudo isso ao mesmo tempo agora" (DAVIS,
1996: 33).
3. PLANEJAMENTO URBANO E TURISMO: DAS CONCEPÇÕES INTERNACIONAIS À EXPERIÊNCIA
DE BELO HORIZONTE
Henri MINTZBERG (1994), teórico
crítico das novas modalidades do planejamento urbano, ao citar perspicazmente
Woody ALLEN[3] em Shadows and
Fog: "Eu estava em minha cama aconchegante, e de repente eu sou parte
de um plano", evoca bem a nova racionalidade do planejamento urbano e suas
mediações com racionalizações em outros outros campos da vida urbana.
As tendências atuais do planejamento
urbano e, particularmente, do inspirado no planejamento estratégico, enfatizam
a cultura como emblema, utilizando-a como rótulo para obtenção de respaldos
e adesões unânimes, que ocultam interesses e fins, estes efetivamente estratégicos.
Na verdade, essa ênfase na perspectiva cultural, por parte do planejamento territorial,
chamado de Cultural Turn (ARANTES, 2000), assume, agora claramente, uma
orientação para o mercado: "o 'tudo é cultura' da era que parece ter se inaugurado
nos idos dos anos de 1960 teria pois se transformado de vez naquilo que venho
chamando de culturalismo de mercado". (id ibidem, 2000: 16).
As sociedades urbanas tornaram-se
mais matizadas, individualistas e internacionalmente sintonizadas com estilos
de vida conscientes e inconstantes, orientados pela moda que parecem orientar
novas racionalidades na produção de imagens urbanas e na consequente busca de
alternativas ancoradas no turismo.
Sucintamente, os resultados desta
nova atitude aparecem no denominado marketing da cidade ou city marketing,
com uma longa história de uso nos Estados Unidos e que, a partir dos anos 80,
adquire um conjunto mais largo de significados na Europa Ocidental. Para muitos
analistas, o termo passou a significar promoção ou, até mesmo, competitividade
da cidade como um todo (VAN GENT, 1984; PEELEN, 1987 apud ASHWORTH, 1990: 10).
Em um mercado urbano, o planejamento estaria, assim, inseparavelmente
ligado ao city marketing, especialmente através da sua paisagem
(i)material, que orienta a concepção das propostas de turismo cultural.
Em Belo Horizonte, apesar das conquistas
e do aprendizado gerado pelos mecanismos democráticos de participação após a
Constituição de 1988, com vários momentos políticos sensíveis a essa condição,
as políticas atuais têm evidenciado traços bem característicos de intenções
estratégicas que refletem, antes de tudo, uma participação social pouco significativa
em decisões importantes relativas aos rumos e ao futuro da cidade.
Dentro dos mecanismos propostos para
incorporação de um modelo de gestão mais democrática dos interesses municipais,
as racionalizações e os interesses propalados por novos paradigmas de administração
pública, como os apregoados pelo planejamento estratégico de cidades, parecem
ter sido mais convincentes, e, portanto, mais fortemente considerados do que
os problemas sociais que urgem em nossas cidades, como proposto por ARANTES
(2000: 68):"(...) do ponto de vista de um país subdesenvolvido, há algumas
coisas que não se pode deixar de lembrar. Assim, parece muito menos plausível
que num tal contexto alguém minimamente responsável - para dizer o menos - possa
imaginar um governo de cidade que se limite basicamente a agenciar negócios,
muito menos que se sinta à vontade propondo uma corrida competitiva em que é
muito óbvio que uns se dão bem na mesma medida em que outros se dão mal".
A emergência, em Belo Horizonte,
na construção da imagem urbana em torno de uma metrópole moderna que estimule
a diversificada instalação de segmentos econômicos de ponta, traduz-se em um
conjunto de diretrizes e para a economia municipal, sobretudo em torno da cultura
e do turismo, ou em desdobramentos de suas potencialidades evidenciados na moda,
ciência e tecnologia, design, esporte e lazer.
Esta atitude evidencia não só o desejo
de melhoria do tecido urbanístico-arquitetônico da cidade como também a adesão
a tendências internacionais em que a qualidade do espaço urbano encontra-se
vinculada ao aumento da competitividade. Inserida nestes critérios, a revitalização
urbana expressa mais do que o interesse na requalificação técnica e ambiental
do espaço urbano, constituindo um instrumento com finalidades, antes de tudo,
estratégicas: "(...) definir revitalização urbana como instrumento de planejamento
urbano com o objetivo de conferir nova qualificação em determinada área urbana,
para sua reinserção sustentada ao contexto urbano, por meio de um conjunto de
ações jurídico-institucionais, sócio-econômico-culturais e físico-ambientais,
com caráter multiinstitucional e multidisciplinar" (BELO HORIZONTE, 1999:
82).
O alcance de uma imagem de cidade
empreendedora, com vocação voltada para o terciário e de pólo de negócios e
serviços eficientes, constitui uma orientação emblemática para a intervenção
urbana: "(...) construção e promoção da imagem de Belo Horizonte como pólo
de negócios, comércio e serviço, indústrias de alta tecnologia, distritos industriais
não poluentes, centro de excelência em educação e demais aspectos em que já
é referência" (ibid: 75). Esta meta é reiterada, ainda, pelo "incentivo
ao desenvolvimento do turismo receptivo, tanto no que se refere à implantação
de equipamentos turísticos, como à criação de programas que visem o incremento
do turismo de negócios, de eventos e de lazer no município". (id ibidem:
74). Para a concretização deste objetivo são propostas soluções com base em
“mecanismos” (estratégicos?) de planejamento, "(...) que transformem Belo
Horizonte em centro convergente da economia local e regional e em agente articulador
de intercâmbios nacionais e internacionais" (id ibidem: 74).
Assim, a consolidação e a promoção
externa da imagem da cidade constitui uma das propostas mais destacadas pela
Conferência, enquanto objetivo econômico estratégico: (...)"promover os recursos
turísticos de Belo Horizonte nos mercados estadual, nacional e internacional"
(id ibidem: 75). Trata-se de efetivar a inscrição internacional da cidade, de
"(...) criar e manter sistema de informações e de publicações turísticas,
nos moldes e nos parâmetros internacionais". (id ibidem: 74). Com a mesma
finalidade, observa-se a seleção de elementos para a construção da imagem sintética
da cidade, em torno das idéias de sucesso e eficiência da administração pública,
buscando-se a (...)"divulgação da cidade em relação aos aspectos em que já
é destaque, como limpeza urbana, projeto de catadores de papel, etc" (id
ibidem: 75). Da mesma forma, os indicadores sociais passam a ser alvo de estratégias,
antes mesmo de serem vistos como subsídios para a conquista de objetivos sociais
primordiais. Visa-se ao"(...) fortalecimento dos indicadores vinculados à
imagem de uma cidade: nível de renda, assistência universitária, capacidade
de administração e capitalização nos mercados de valores, índice de desenvolvimento
humano (IDH): baixa taxa de analfabetismo, longevidade, etc" (id ibidem:
75).
Além dessas disposições, o município
conta com um “escritório estratégico” que, desde 2000, vem articulando discussões
em torno da confecção do Plano Estratégico da Cidade. Formalmente, a sua concepção
não se encontra vinculada ao poder público, sendo sua composição dirigida, sobretudo,
por segmentos empresariais, a mídia local e grupos de pesquisa, apesar da presença
articuladora de dirigentes de órgãos públicos. A consultoria técnica para a
elaboração do Plano foi contratada da famosa GFE ASSOCIATS de Barcelona
que se constitui numa das principais disseminadoras da importância dos planos
estratégicos de cidades, no Brasil e no mundo. Os trabalhos técnicos realizados
até o momento se posicionaram no reconhecimento das potencialidades estratégicas
do município e de sua capacidade de polarizar atividades econômicas ao nível
metropolitano.
Nestes novos formatos assumidos pelo
planejamento e a política urbana, as formas de participação social e envolvimento
público nas decisões tendencialmente se fragmentam em meio a representações
cambiantes da vida urbana, onde a contemplação passa a ser a maneira pela qual
os indivíduos vêem perpetuados os seus desejos e carências: "a produção social
da contemplação inclui a emergência de uma ação ampla de planejamento que permita
a mobilização, a administração e o direcionamento de massas de recursos, mercadorias
e pessoas. Este planejamento, que inclui a contínua absorção de novas tecnologias
e instrumentos, permite a interligação entre os equipamentos específicos do
setor e o consumo geral de espaços e mercadorias" (RIBEIRO, 1988: 270).
4. PLANEJAMENTO URBANO E TURISMO: CIDADE, COMUNICAÇÃO E CULTURA
Uma das características mais marcantes
na execução de programas vinculados ao planejamento estratégico das cidades,
no mundo inteiro, tem sido a forte referência, no discurso e na prática, às
transformações e mobilizações dos espaços, paisagens e cultura urbanas, como
requisito à conquista de confiabilidade por parte dos investidores turísticos.
Esse é um traço que, particularmente, nos tem chamado a atenção, pois referenda
a espetacularização emblemática dos espaços urbanos, evidenciando uma clara
mudança na própria incorporação do espaço no planejamento urbano.
Baseada em vários autores (HARVEY,
1993; PRETECEILLE, 1990; SANTOS, 1988), DANTAS (1997:149 a 152), ao sintetizar
o planejamento urbano a partir da década de 90, conclui que, na matriz anterior
de planejamento (regulatório), “o espaço era visto como recurso a ser moldado
com propósitos sociais” e, na versão atual, "(...) o espaço é
entendido como dimensão independente e autônoma, a ser moldada segundo princípios
estéticos”. Nesta última concepção, o espaço, reificado, adquire uma posição
aparentemente mais importante por conter a capacidade autônoma de gerar resultados
em/ por si.
Ao trazer o pensamento estratégico
e empresarial para a esfera da administração urbana, consultores “estrategistas”
difundem a proposta de que características da paisagem urbana devem ser utilizadas
como um dos principais trunfos na competição por recursos e investimentos. Nessa
leitura de cidade, comumente evocada e divulgada, as condições “desfavoráveis”
da paisagem urbana, como favelas ou áreas degradadas, passam a ser alvo de propostas
de “revitalização” meramente estética ou, pior que isso, expostas como "pontos
de atração turística" (VAINER, 2000). Esta nova geração de urbanistas, que
mais parecem ter saído de escolas de propaganda, lidam com a cidade reinventando,
estrategicamente, “produtos-paisagem”, promovidos sob a forma de imagens: "pois
é esta a simbiose de imagem e produto que caracteriza a cidade-empresa-cultural
perseguida pela terceira geração urbanística" (ARANTES, 2000).
Neste sentido, as intervenções na
paisagem urbana e a produção de imagens construídas e/ ou alteradas por processos
comunicacionais, se reveste de forte intenção estratégica, mobilizando a cultura
em busca de novas sincronicidades entre paisagem e imagem: "estes agentes
modernizadores são responsáveis por uma crescente sincronicidade entre paisagem
e imagem, ou seja, pela produção especializada de uma imagética que seleciona
e difunde ângulos da realidade urbana. Assim, as fragmentações da vida social
e da materialidade são re-lidas por novos processos de comunicação que hiperexpõem
ou ocultam elementos significativos da paisagem urbana" (RIBEIRO, 1998a;
1998b). A modernização de espaços da cidade imediatamente conduz a uma modernização
reciclada das imagens urbanas, com o poder de parecer atualizar a paisagem e
conquistas novos valores estratégicos.
A construção de imagens, a partir
do contato com a paisagem e o espaço geográficos, é inerente à vivência. Afinal,
a vida social e o ambiente condicionam a conformação da experiência humana.
Portanto, reconhece-se a importância das representações sobre a paisagem e a
vida cultural como constituintes da identidade e como condição imprescindível
para a consolidação da cidadania e do bem-estar coletivo. Acreditamos, nesta
direção, que a utilização de mecanismos que modificam e interagem como mediadores
nesta relação entre ação e representação, pode impedir mobilizações reais e
criar oportunidades simuladas e, portanto, transformações aparentes da vida
coletiva.
Considerando essas referências, a
paisagem passa a ser entendida como uma categoria que pode ser historicamente
contextualizada, ou seja "a paisagem é materialidade, formada por objetos
materiais e não-materiais" (Santos, 1988: 71). Ou ainda nas palavras
deste mesmo autor: "(...) a paisagem é a materialização de um instante da
sociedade. Numa comparação ousada, a realidade de homens fixos, parados como
numa fotografia, diferentemente do espaço, resultante do casamento da sociedade
com a paisagem. O espaço contém o movimento (tempo)". (ibid:1988:
72).
Neste sentido, de uma perspectiva
existencial, a paisagem constitui-se na própria materialização imediata e momentânea
da vida social externalizada, como nos disse Virgínia Woolf já em 1938: "embora
vejamos o mundo, nós o vemos por diferentes olhos" (WOOLF, 1938: 22 apud
McDOWELL, 1994).
A proliferação dessas inovações e
crescente facilidade de circulação de imagens têm recolocado, tanto para a geografia
cultural como para a antropologia e o turismo cultural, novas clivagens culturais,
indicadas pela metáfora proposta pelo antropólogo James Clifford de "culturas
itinerantes". Esta parece ser a maneira mais apropriada de conceituar os
novos elos entre o local, o regional e o global, confirmando o fato de que "(...)
a análise cultural organiza seus objetos - sociedades, tradições, comunidades,
identidades, em termos espaciais" (CLIFFORD, 1992:97 apud McDOWELL, 1994:182).
Para teóricos contemporâneos, assim,
a comunicação é ponte indispensável na compreensão da vida urbana: "(...)
interpretar a publicidade metropolitana, as suas escolhas comunicativas em nível
da multiplicidade das linguagens, dos conteúdos e dos saltos metacomunicativos,
talvez seja o objetivo fundamental para se decifrar os sistemas urbanos de orientação
que fazem a moda" (CANEVACCI, 1997:184). Apoiando-nos na concepção destes
autores (APPADURAI, 1990 apud CANEVACCI, 1997; CANEVACCI, 1997), podemos afirmar
que as tecnologias de comunicação e informação, alterando e criando novas mediações
entre experiências reais e virtuais, modificam apropriações do espaço. Percebe-se,
assim, "que a percepção dos espectadores - e toda metrópole - é um repertório
interconexo entre imagens midiatizadas que torna tênue a linha que deveria separar
as imagens realistas das ficcionais" (CANEVACCI, 1997:45).
Configuram-se, dessa forma, processos
de (dês)ressimbolização que podem produzir bloqueios e obstáculos à afirmação
de formas mais avançadas e autônomas de apropriação e condução de oportunidades.
Ou seja: "estas paisagens piratas que percorrem o cenário comunicativo urbano
focalizam o processo de dessimbolização que caracteriza toda a cultura contemporânea
'avançada', produz o colapso dos símbolos e a proliferação paralela dos signos"
(CANEVACCI, 1997:45).
É preciso, portanto, (re)ler e desconstruir
esses pseudo-simbolismos projetados na paisagem, considerando e respeitando
a pluralidade cultural, expressiva de grupos sociais distintos, em busca de
condições mais humanas, justas e democráticas de integração social. Daí a importância
que precisa ser atribuída às conexões analíticas entre cotidiano, representações
da natureza e estudos sobre o significado de paisagens na construção identitária.
Nossa reflexão busca, então, estabelecer elos analíticos entre a cena urbana
e imagens construídas, em sua capacidade de alterar representações sociais e
a disputa de oportunidades a partir dos atuais formatos assumidos pelo planejamento,
a gestão local e a ação desenvolvida por empreendedores urbanos.
Acreditamos que as paisagens manipuladas
racionalmente em nome de interesses instrumentais estão, tendencial e felizmente,
fadadas ao fracasso, pois os processos sociais têm em si a capacidade de criação
de novas apropriações efetivas dos lugares, pois em acordo com RIBEIRO (1998b:
14, 15): "(...) a centralidade adquirida, no mundo contemporâneo, pela manipulação
instrumentalizada da paisagem urbana contrasta com a força preservada pelos
processos sociais profundos, estimuladores da neutralização de tentativas de
atualização de marcos urbanos. Aí estão as crescentes rotinas urbanas para indicar
a invisibilidade de símbolos e signos. Luzes e cores também produzem a saturação
informacional e a indiferença. Afinal, a excessiva ambientação contrasta com
o valor mantido pela vida espontânea, pelo simples e pelo próximo". A modernização,
a partir de inovações técnicas inscritas no espaço, é incapaz de gerar permanentemente
a adesão social aos projetos dominantes. Como argumento de convencimento social,
as intervenções estratégicas na paisagem urbana apresentam limitações, já que
o estímulo incessante do novo avisa sobre a fugacidade que atinge, ao final,
a tudo e a todos.
Esse tipo de intervenção com objetivos
claros de reciclagem espacial e cultural da imagem urbana, evidenciando clara
tendência à gentrificação, tem início na década de 60 nos Estados Unidos
e na Europa Ocidental. São inúmeros os exemplos desta tendência, como os do
Battery Park em Nova York e o da clássica requalifação do SoHo, em Manhattan.
Para ARANTES (2000: 32), nestas intervenções, já havia "um conjunto movido
a transgressões sistemáticas da legislação com a mal disfarçada aquiescência
da administração local".
Contemporaneamente, as intervenções
buscam, cada vez mais, a reciclagem imagética dos lugares. Desta forma, antes
da importância conferida à transformação da paisagem física e cultural das cidades,
encontra-se a intenção de gerar imagens recicladas e sinteticamente estimuladoras
de oportunidades econômicas. Assim, cidades como Paris, Barcelona, Bilbao, Lisboa,
Berlim e Sidney, só para citar algumas, paralelamente à realização de intervenções
realizaram megaeventos, propícios à divulgação midiática de novos “produtos
paisagísticos”, como exemplifica a instalação do museu Guggenheim em
Bilbao.
No caso de Belo Horizonte, a própria cidade surge, curiosamente,
de objetivos estratégicos, onde são buscados efeitos da imagem da nova capital,
inspirada na racionalidade moderna, na representação de uma nova etapa histórica,
econômica, social e cultural para o Estado de Minas Gerais. Ao longo de sua
evolução, os administradores locais foram perspicazes na constante reprodução
de inovações espaciais com a finalidade de requalificar a imagem urbana da cidade,
como na clássica união, na década de 40, entre o então prefeito Juscelino Kubitschek
e o arquiteto Oscar Niemeyer, com seus arrojados projetos para o Complexo Arquitetônico
e Paisagístico da Pampulha[4]
e, mais atualmente, e dentro de uma proposta clara de gentrificação estratégica,
temos, na década de 70, a criação da Savassi como um novo lócus do consumo e
da sofisticação paisagística e cultural.
5. TURISMO, INTERNACIONALIZAÇÃO E CITY MARKETING: FORMAS DE APROPRIAÇÃO DO
SISTEMA TÉCNICO E PRODUÇÃO SOCIAL DAS IMAGENS URBANAS
A internacionalização da imagem de
Belo Horizonte e sua promoção tursítica ocorrem mediante o entendimento correspondente
na ampliação dos negócios através de “parcerias” econômicas. Neste sentido,
e fundamentando-se também estrategicamente em modernizações espaciais, econômicas
e culturais, a própria cidade é transformada no principal produto a ser promovido:
"(...) a política urbana atual utiliza poderosos aparatos de comunicación
tanto a nivel local como en redes internacionales para conseguir sus objetivos
de revitalización o, para utilizar um término menos contagiado del discurso
hegemónico, de reestruturación económico-espacial. Em este sentido, presentarse
como ciudades competitivas en el mercado mundial de localizaciones requiere,
también, disponer de una presentación que sea muy atractiva, capaz de transmitir
las virtudes del producto ofrecido que, en este caso, es la misma ciudad” (BENACH
e SÁNCHEZ, 1999: 42)[5].
Neste entendimento, nada mais eficiente,
como recurso, do que a cultura, apropriada como um atrativo virtuoso e diferencial
num contexto econômico internacional, onde determinantes espaciais são, cada
vez mais, homogeneizáveis a partir da assimilação rápida de práticas de modernização
espacial. Assim, a referência ao city marketing que fundamenta esta análise,
além de representar a promoção da cidade e de seus “produtos” (ASHWORTH,G.
e VOOGD, H., 1990; KEARS, G. e PHILO, C., 1993), significa a opção econômica
estratégica priorizada pelo planejamento urbano contemporâneo.
Fica patente o forte peso
atribuído ao setor cultural para a reconstrução da imagem da cidade, na sua
capacidade de gerar novas atividades e investimentos. Trata-se da desejada projeção
estratégica de Belo Horizonte em circuitos econômicos transnacionais, nos quais
o turismo relaciona-se ao desenvolvimento do setor cultural, como tradução imediata
da própria imagem requerida para a cidade.
Essa vinculação da produção cultural
à imagem/ representação da cidade pode ser verificada no Primeiro Diagnóstico
do Setor Cultural, produzido pela Prefeitura de Belo Horizonte, no qual se indica,
como reivindicação para a organização e o incentivo à área cultural, a associação
entre artistas, produtores e poder público, expressa na criação de um certificado
de qualidade para a produção cultural de Belo Horizonte: "(...) sugere-se
à Prefeitura a iniciativa de certificar os artistas que participam do mercado
cultural belo-horizontino, como existe hoje em vários setores econômicos com
o ISO. Essa iniciativa consistiria numa medida protecionista, com o objetivo
de preservar a qualidade da produção cultural em Belo Horizonte e inibir a entrada
de oportunistas, contribuindo, assim, para a profissionalização do setor" (BELO
HORIZONTE, 1996: 103).
Paralelamente, o fortalecimento da
Agência Municipal de Turismo (BELOTUR) e a criação do Belo Horizonte Convention
& Visitors Bureau (BHCVB) visam firmar a importância do turismo pela
cidade, legitimado, além disso nas novas propostas do Plano Diretor de Belo
Horizonte, aprovadas na Conferência Municipal de Política Urbana (1999):
"(...) incentivo ao desenvolvimento
do turismo receptivo, tanto no que se refere à implantação de equipamentos turísticos,
como à criação de programas que visem o incremento do turismo de negócios, de
eventos e de lazer no município". (BELO HORIZONTE, 1999: 74).
"desenvolver o turismo de eventos
e negócios" (id ibidem: 74).
"Criar e manter sistema de informações
e de publicações turísticas, nos moldes e nos parâmetros internacionais".
(id ibidem: 74).
"Promover os recursos turísticos
de Belo Horizonte nos mercados estadual, nacional e internacional" (id ibidem:
75).
"Construção e promoção da imagem
de Belo Horizonte como pólo de negócios, comércio e serviço, indústrias de alta
tecnologia, distritos industriais não poluentes, centro de excelência em educação
e demais aspectos em que já é referência" (id ibidem: 75).
Dessa forma, atributos da vida urbana
têm sido relidos e otimizados na construção da imagem pretendida, buscando-se
a inscrição de Belo Horizonte no conjunto de grandes centros internacionais
com capacidade de atração estratégica de fluxos de pessoas, de novos negócios
e investimentos. Com este propósito têm sido produzidas, por estas agências
(BELOTUR e BHC&VB, 1999), também estrategicamente, “sínteses imagéticas”
acionadas na construção da imagem da cidade. A seguir mostraremos como diversas
modalidades de usos culturais se associam em grande proporção ao discurso que
fundamenta a imagem urbana de Belo Horizonte e refletiremos criticamente sobre
suas contribuições ao turismo cultural da cidade.
5.1 Cidade- Espetáculo: Festivais Internacionais
Com as comemorações do centenário
de inauguração de Belo Horizonte, a administração municipal entende que se oportuniza,
historicamente, a possibilidade para consolidação da pretensa vocação da cidade
como pólo cultural no Brasil. Partindo deste entendimento, a administração
municipal organiza a realização de importantes eventos que visam a promoção
espetacular da cultura, envolvendo a imagem da própria cidade. São exemplos:
FIT (Festival Internacional de Teatro), FID (Festival Internacional de Dança),
FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), Encontro Mundial de Artes Cênicas,
Mostra Internacional do Cinema Latino Americano, Panorama Mundial do Cinema
Independente, Festival Internacional de Curtas-Metragens, Bienal Internacional
de Poesia, Encontro de Literatura e Letras dos Países de Língua Portuguesa,
dentre outros que, dinamicamente, são incorporados à lógica peródica do circuito.
O principal objetivo destes eventos é movimentar a cena urbana através de projetos
organizados cronologicamente segundo uma estratégia de oferta constante de produtos
culturais – nacionais e internacionais – à população local, possibilitando também
que visitantes, artistas e produtores externos conheçam a cidade e seus serviços.
5.2 A Moda na Cidade ou a Cidade da Moda?
Com crescente importância na atividade econômica, a moda,
enquanto circuito econômico integrado, já representa importente setor econômico
no país. Em Belo Horizonte, a importância atribuída à moda na vida econômica
da cidade e o seu tratamento como setor estratégico podem ser observados no
próprio Plano Diretor, em seus ajustes atuais: "(...) transformar BH em um
pólo nacional de moda por ser uma cena privilegiada com as manifestações mais
premiadas da atualidade brasileira". (BELO HORIZONTE, 1999: 74)
Essas recomendações se materializam no incentivo à criação
de um pólo de moda e confecção na região do Barro Preto, bairro localizado na
área central no município que, após anos de declínio imobiliário, passou a abrigar
um grande número de pequenas fábricas, shoppings e galerias de lojas atacadistas
e show rooms. Além disso, a administração pública, através de acordos
com o governo italiano, sobretudo com a cidade de Milão, tem procurado qualificar
a mão-de-obra local e inserir a cidade no circuito internacional da moda.
5.3 A Música como Imagem: rock'cidade
Belo Horizonte é hoje um dos maiores pólos de produção musical
no Brasil e ao longo de sua trajetória urbana estes movimentos apresetaram importantes
nomes, como o reconhecido Clube da Esquina, encabeçado por Mílton Nascimento,
Flávio Venturini, Beto Guedes e Lô Borges, dentre outros, que, inspirados na
produção de rock internacional da década de 60, sobretudo nos Beatles,
personalizaram um boom da produção musical local, comparado ao da Bossa
Nova e ao da Tropicália. Após o sucesso internacional do Grupo de
Heavy Metal Sepultura e a visibilidade no país das bandas Skank,
Pato Fu, Jota Quest, Mary’s Band, DIESEL, Omeriah, Tianastácia e Elétrica tem-se
diversificado a produção deste gênero na cidade: "BH é uma cidade musical.
Alguns bairros são famosos pelos sons que brotam de cada esquina. De Santa Teresa,
por exemplo, saíram as músicas do Clube da Esquina,comandado por Milton Nascimento,
e o rock pesado do Sepultura. A cidade orgulha-se ainda dos sons, diversificados
e harmoniosos, do Uakti, Ars Nova, Skank, Pato Fu e Virna Lisi"(Belo Horizonte,
1997: 13).
Além de deter rica produção musical e ter sido o placo de
importantes movimentos musicais, a cidade tem sediado eventos patrocinados pela
Secretaria Municipal de Cultura, sob a forma de shows privados, como
os anuais BH Pop Rock, Festival de Hip Hop e Festival
de Música Eletrônica. A ampliação destes eventos, otimizando espaços públicos
e privados da cidade, tem sido pensada em direção à organização futura de de
outros estilos e gêneros musicais (Festival de MPB e de Música Caipira),
também presentes no diagnóstico cultural da cidade: "(...) aos espaços públicos,
existentes e pouco aproveitados para a divulgação musical - Parque das Mangabeiras,
Praça da estação - fica o entendimento de que são bons locais para espetáculos".
(id ibidem: 103).
5.4 Eventos Culturais, Moda, Música: análise crítica de sua “utilização”
como ícones para o turismo cultural
Com base nessas associações entre produção cultural e imagem
urbana, podemos afirmar que se houve ampliação do que conta como experiência
e competência “cultural”, abriram-se também oportunidades para a “capitalização”
e o “apaziguamento” da cultura popular. A “cultura” se expandiu, não por causa
de algum aumento real de oportunidades, mas em função do aumento da diversificação
das formas pelas quais a experiência cultural é acessada. Lembrando Fredric
Jameson, podemos dizer que a produção musical atual, como expressão midiatizada
da cultura nas sociedades pós-modernas, inscreve-se na aceleração dos ciclos
do estilo e da moda, no crescente poder da publicidade e da mídia eletrônica
e no advento da padronização universal do “pastiche esquizóide da cultura
pós moderna [sic]”, perdendo rapidamente a sua capacidade de propiciar a
vivência do passado em direção a um futuro melhor (JAMESON, apud CONNOR, 1996:
43).
6. NOVAS PAISAGENS CULTURAIS DA BELO HORIZONTE DO SÉCULO XXI: MODERNIZAÇÕES
ESPACIAIS E RACIONALIZAÇÃO DA CULTURA
O planejamento urbano como uma das
esferas da vida moderna reflete complexas mutações da vida sócio-cultural e
econômica, apesar de parecer criá-las de forma autônoma. Assim, intenções administrativas
e intervenções urbanas correspondem a múltiplas e dinâmicas determinações, expressando
racionalizações do espaço e da vida social motivadas por uma multiplicidade
de interesses, igualmente complexos.
A valorização de mecanismos de comunicação
como uma eficiente e atraente possibilidade de gerar adesões sociais a projetos
específicos deve ser relativizada pela consideração de que a vida social é mais
do que a mera condução de indivíduos à adoção de determinados estilos de vida.
Afinal, se a racionalização da vida social é capaz de criar e moldar a realidade
para a satisfação dos interesses de determinados segmentos, deve-se reconhecer
sempre a possibilidade da resistência, mesmo que esta seja inconsciente.
O que se observa em Belo Horizonte,
Brasil, é que a incorporação de um conjunto de racionalidades na relação entre
planejamento urbano e produção de imagens urbanas, ao privilegiarem a dimensão
cultural, como potencialidade para desenvolvimento e ampliação do turismo, favoreu
fortes desencontros entre representações sociais legítimas do espaço da cidade
e práticas difusamente “culturais” calcadas no virtualidade e na reificação
da política. As imagens urbanas são fruto de uma complexa interação social e
cultural do homem com o ambiente, indo além da simples produção reducionista
e estratégica de imagens sintéticas, que podem conduzir a um sério afastamento
entre habitante e habitat sendo assim produzidas novas exclusões sociais.
Ou seja, a crença de que “tudo é
cultura” e, portando, legitimável para o desenvolvimento de novas oportunidades
econômicas envolve o fato de que, na verdade, não foi a cultura enquanto possibilidade
de enriquecimento da experiência urbana que foi ampliada, mas sim as formas
abertas para a sua “capitalização” e validação, nos diferentes ângulos e circuitos
do turismo cultural.
Evocando essa reflexão, podemos dizer que o “turismo cultural”
se expandiu, não por causa de algum aumento real de oportunidades e/ ou de estímulo
à diversidade cultural, mas sim em função de uma expansão e de uma diversificação
das formas pelas quais a capitalização da cultura e sua espetacularização se
racionalizou por estratégias modernizadoras do espaço.
O turismo cultural como potencialidade historicamente configuranda
na rica trajetória de Belo Horizonte deve organizar-se em torno das constantes
reinvenções de possibilidades do existir coletivo e das paisagens culturais
decorrentes dessa experiência sócio-espacial.
A verdadeira paisagem da cidade, no entanto, não se deixa
apreender por estratégias modernizadoras ou por racionalizações da cultura.
Ela é própria, imediata, calcada no dia-a-dia e, ainda, expressiva da vida social.
É nesta paisagem que acreditamos existirem possibilidades e oportunidades para
todos, fundadas na vivência coletiva e expressivas, potencialmente, de múltiplas
e dinâmicas escolhas.
BIBLIOGRAFIA
ARANTES, Otília F. (2000) Uma Estratégia
Fatal: a cultura nas novas gestões urbanas. In: A Cidade do Pensamento Único:
Desmanchando Consensos. Petrópoles: Vozes, pp. 11-74.
ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento
(1990). Mitologia da Mineiridade: o imaginário mineiro na vida política e
cultural do Brasil. São Paulo: Brasiliense.
ASHWORTH, Gregory J.; VOOGD, Henk (1990). Selling the
city: marketing approaches in Public Sector Urban Planning. London/ New
York: Belhaven Press, 177 p.
BELO HORIZONTE CONVENTION & VISITORS BUREAU (1998). Guia
do Planejador de Eventos. Belo Horizonte: BHC&VB, pp. 8-15.
BELO HORIZONTE, PREFEITURA MUNICIPAL (1996). Aprovado
Plano Diretor de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Diário Oficial do Município,
ano II, n 224, 28de agosto de 1996.
BELO HORIZONTE, PREFEITURA MUNICIPAL (1996). Primeiro
Diagnóstico da Área Cultural de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Secretaria
Municipal de Cultura.
BELOTUR (1999). O Setor Turístico em Belo Horizonte I
e II. Belo Horiozonte: BELOTUR.
BENACH, Nuria e SÁNCHEZ, Fernanda (1999). Políticas Urbanas
y Produción de imágenes de la Ciudad Contemporánea: um análisis comparativo
entre Barcelona y Curitiba. In: La Ciudad, escenario de comunicación.
Quito: FLACSO, pp. 23-96.
CANCLINI, Néstor García (1995). Consumidores e cidadãos:
conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: UFRJ. 266 p.
CANNEVACCI, Maximo. A cidade polifônica. Ensaio sobre
a Antropologia da Comunicação urbana. São Paulo: Nobel, 1993.
CONNOR, Steven (1993). Cultura
pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. São Paulo: Edições
Loyola. 229 p.
DANTAS, Ana Cláudia de Miranda (1997). Planejamento urbano
nos anos 90: negociações entre as esferas pública e privada. Tese de
Mestrado em Planejamento Urbano e Regional. Rio de Janeiro: IPPUR/ UFRJ.
219 p.
DAVIS, Mike (1993). Cidade de Quartzo: escavando o futuro
em Los Angeles. São Paulo: Scitta Editorial. 378 p.
DEBORD, Guy (1997). Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo.
In: A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.
EGLER, Tamara T. Cohen (1999). Rio-Cidade: espaço e imagem.
São Paulo: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. V. XXI, n 1.
FORTUNA, Carlos (1999). Identidades, Percursos, Paisagens
Culturais: estudos sociológicos de cultura urbana. Oeiras: Celta, 148 p.
HABERMAS, Jürgen. (1987). A Nova Intransparência, a crise
do Estado do Bem Estar Social e o esgotamento das energias utópicas. São
Paulo: Novos Estudos CEBRAP, pp. 103-114.
HARVEY, David (1994). Condição pós-moderna. São Paulo:
Loyola. 349 p.
HARVEY, David. (1996). Do Gerenciamento ao Empresariamento:
a transforamção da administração urbana no capitalismo tardio. São Paulo: Espaço
& Debates, v 16, n 39, pp. 48-64.
KEARNS, Gerry & PHILO, Chris (1993). Selling Places:
the city as cultural capital, past and present. Oxford: Pergamon Press.
KUMAR, Krishan (1997). Da Sociedade Pós-industrial à Pós-moderna:
novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar. Caps.
I (pp. 78-111) e V (pp. 112-158).
LAW, Christopher M.(2000). Urban Tourism, Attracting Visitors
to Large Cities. London: Mansell.
LEMOS, celina Borges (1988). Determinações do espaço urbano:
a evolução econômica, urbanística e simbólica do Centro de Belo Horizonte.
Dissertação de Mestrado em Sociologia. Belo Horizonte: FAFICH/ UFMG, vol. II.
MARTÍNEZ, Consuelo Corredor (1997). Los Limites da la modernización.
Bogotá: CINEP/ Faculdad de Ciencias Económicas – universidad Nacional de
Colombia. Cap. I , pp. 34 -67.
McDOWELL, Linda (1994). A Transformação da Geografia Cultural.
In: Geografia Humana: sociedade, espaço e ciência social. Rio de Janeiro:
Zahar, pp. 159-188.
MINTZBERG, Henri (1994). The Rise and the Fall of Strategic
planning. Toronto: The Free Press (Capts. I e II, pp. 5-90; cap. V, pp.
221-321).
PEREIRA, Valnei (2001). Intenções Estratégicas no Planejamento
Urbano de Belo Horizonte: Modernização Espacial, Internacionalização e City
Marketing. Tese de Mestrado em Planejamento Urbano e Regional. Rio
de Janeiro: IPPUR/ UFRJ.
REVISTA EXAME. As melhores cidades para fazer negócios.
São Paulo, pp. 77-103.
RIBEIRO, Ana Clara Torres (1988). Rio-Metrópole: A Produção
Social da Imagem Urbana. Tese de Doutorado em Sociologia. São Paulo:
FFLCH/ USP. Volumes I e II.
RIBEIRO, Ana Clara Torres (1995). O espetáculo urbano no
Rio de Janeiro. In: Cadernos IPPUR/ UFRJ, ano IX, n 1/4, jan./ Dez. Rio
de Janeiro, pp. 55-64.
RIBEIRO, Ana Clara Torres (1998). A paisagem do futuro: escolhas
e possibilidades. In: Redes. Rio de Janeiro: Centro Universitário Moacyr
Sreder Bastos, v. 2, n. 6, set/ dez pp. 06-16.
SANTOS, Milton (1988). Metamorfoses do Espaço Habitado.
São Paulo: Hucitec.
SANTOS, Milton (2000). Por uma outra globalização: do
pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record.
SOJA, Edward. (1997). Geografias pós-modernas: a reafirmação
do espaço na teoria social crítica. Rio de Janeiro: Zahar.
VAINER, Carlos Bernardo (2000a).
Pátria, Empresa e Mercadoria. Notas sobre a Estratégia Discursiva do Planejamento
Estratégico Urbano. In: A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Consensos.
Petrópoles: Vozes. Pp. 75-104.
VAINER, Carlos Bernardo (2000b).
Os Liberais também fazem Planejamento Urbano? Glosas ao “Plano Estratégico da
Cidade do Rio de Janeiro. In: A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando
Consensos. Petrópoles: Vozes. Pp. 105-120.
[1] Sob direção do engenheiro-chefe Aarão Reis, a Comissão
Construtora era organizada em seis seções com cinco engenheiros, um médico higienista,
um auxiliar administrativo e um desenhista. O apoio político decisivo foi dado
pelo Presidente do Estado à época, Crispim Bias Fortes.
[2] Na atualidade, o setor de serviços já representa
mais de 80% do PIB municipal (BELOTUR, 2000). A idéia da administração municipal
é de fortalecer este setor, diversificando-o e qualificando-o.
[3] Em Shadows and Fog "I was in a warm bed, and suddenly
I'm part of a plan". "Eu estava em uma cama quente, e de repente eu sou parte
de um plano" (Mintzberg, 1994: 6, tradução nossa), Woody Allen, brilhantemente,
ilustra a problemática do sujeito absorvido na idéia de interesse público. Esta
mesma problemática foi refletida por Hannah ARENDT (1958) em "As Esferas Pública
e Privada" ao confrontar as diferenças no sentido e apropriação, pela sociedade
contemporânea, de público x privado e individual x social e refletir o dinâmico
processo de individuação no contexto urbano a partir da primeira metade do século
XX.
[4] Projeto no qual também participaram o pintor Cândido
Portinari, o escultor Alfredo Ceschiatti e o paisagista Roberto Burle Marx.
[5] Este texto encontra-se em catalão.
|
|